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Movimento popular » Diretas, 30 anos depois Três décadas após o primeiro grande comício, estudiosos e personagens daquele momento histórico avaliam as mudanças no país, que registrou um ganho social, mas que ainda tem os movimentos políticos distantes dos anseios da sociedade

Correio Braziliense

Publicação: 25/01/2014 08:31 Atualização: 25/01/2014 03:04

No próximo 5 de outubro, ao se dirigirem às seções eleitorais para escolher o presidente da República, milhares de brasileiros nem se darão conta de que estarão exercendo um direito negado aos cidadãos do país não faz muito tempo. Neste sábado, o primeiro grande comício do movimento que ficou conhecido como Diretas Já, realizado na Praça da Sé, em São Paulo, completa 30 anos. Depois de algumas manifestações menores, a campanha que pedia o retorno do voto direto, extinto desde o golpe de 1964, reuniu cerca de 300 mil pessoas, arrebatando corações e mentes por todo o território nacional. Quem esteve nas ruas e estudiosos do período apontam o movimento como um dos mais importantes do Brasil, ainda que a democracia sonhada na época não seja exatamente a vivenciada hoje.

“Naquele tempo, havia mais esperanças sobre a criação de um bem-estar social, que diminuísse as injustiças sociais, o que de certa maneira se expressou na Constituição Federal de 1988, mas não de forma tão forte como se esperava”, afirma Marcelo Ridenti, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Campinas (Unicamp). Apesar das expectativas frustradas, são inegáveis os avanços obtidos pelo país pós-redemocratização. Além da liberdade, um direito de importância incalculável, o Brasil erradicou a fome, diminuiu a pobreza, universalizou o acesso à escola. Conseguiu driblar a hiperinflação, trocou cinco vezes de moeda, estabilizando-a em meados da década de 1990, galgou posições na economia mundial. O jogo político é o que talvez não tenha evoluído a contento, comenta Ridenti.

“Especialmente depois do impeachment do Collor, criou-se um modus vivendi que leva os políticos a darem muita importância em assegurar a governabilidade, com amplas alianças e negociações que não são muito limpas. Isso faz com que não notem o que acontece na base da sociedade. Os protestos do ano passado são uma reação a essa política institucional que se faz hoje”, critica o professor da Unicamp. Ridenti ressalta que a campanha pelas Diretas Já é um marco não só pelo que reivindicava, mas, sobretudo, pela quantidade de gente que se mobilizou. Depois do comício na Praça da Sé, o movimento se espalhou pelo Brasil. “Foi uma febre no país inteiro.”

Cidades grandes, de médio porte e até pequenas, como Poços de Caldas (MG), foram palco da mobilização. A conta oficial varia entre 32 e 41 comícios. O maior deles levou mais de 1 milhão de pessoas ao Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. De mãos dadas, com papéis amarelos, cor do movimento, caindo do céu, as pessoas choravam e cantavam. Personalidades do mundo artístico e esportivo participaram em peso. Além de Fafá de Belém (leia entrevista na página 3), que se tornou ícone da campanha, as atrizes Christiane Torloni e Irene Ravache, os cantores Chico Buarque e Elba Ramalho, a escritora Lygia Fagundes Telles, o jogador Sócrates foram participantes ativos da empreitada.

Frustração
Apesar de toda a pressão popular, a campanha pelo voto direto para as eleições presidenciais acabou frustrada pela rejeição, na Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda Constitucional apelidada com o nome do autor, Dante de Oliveira. O parlamentar mato-grossense queria alterar dois artigos da Constituição de 1967 para reintroduzir o voto direto na escolha para chefe do país. Mas, em abril de 1984, por 22 votos, a matéria não passou. Eram necessários 320 deputados favoráveis para que a proposta fosse ao Senado. Só 298 votaram sim. Foram registradas mais de 100 ausências no plenário, inviabilizando qualquer tentativa de sucesso da mudança por uma via legislativa.

Com a rejeição da emenda, a saída foi encarar a eleição indireta para presidente da República em 1985. Uma negociação interna entre os oposicionistas do governo resultou na escolha de Tancredo Neves (PMDB) para disputar o cargo, no lugar de Ulysses Guimarães. O político mineiro, que se tornou uma das maiores lideranças das Diretas Já, teve como vice, na chapa, José Sarney. Tancredo, porém, nem chegou a tomar posse. Acometido por uma diverticulite, morreu em 15 de abril de 1985. Sarney assumiu o cargo. O sonho da retomada do voto direto para a Presidência só seria possível em 1989, quando os brasileiros elegeram Fernando Collor de Mello. Este ano, o país escolherá pela sétima vez, de forma direta, o presidente da República, desde 1964.


EU FUI
Péricles Cavalcanti, músico
“Desde 1968, quando eu era estudante de filosofia da USP, não participava de uma passeata ou protesto. Mas o clima era de tanta agitação, tanta esperança por dias melhores, que eu resolvi ir. Deixei minha filha na escola e fui, de metrô, para lá, sozinho. A Praça da Sé estava lotada, muito cheia. Eu fui arrodeando a praça até que vi um edifício com dois ou três andares de garagem. Subi lá para conseguir ver o comício. Não dava para ouvir bem. Mas era emocionante, uma festa na rua. Felizmente, o voto direto retornou tempos depois, com a democracia. Apesar das crises, o país está melhorando. Tem havido punições para quem age errado. A tendência é melhorar, não tenho dúvida.”


Veja abaixo quem foram os personagens históricos que estão na foto, da esquerda para direita. Foto: Antônio Carlos Piccino / Agência O Globo
Veja abaixo quem foram os personagens históricos que estão na foto, da esquerda para direita. Foto: Antônio Carlos Piccino / Agência O Globo

Quem é quem

Lula

Sindicalista de expressão nacional por liderar greves no ABC paulista, Luiz Inácio Lula da Silva se tornou uma das lideranças das Diretas Já. Em 1986, elegeu-se deputado federal por São Paulo. Foi candidato ao Planalto em 1989, na primeira eleição direta para presidente desde o golpe militar de 1964, vencida por Fernando Collor de Mello. Volta a se candidatar mais duas vezes, sem sucesso. Com um discurso menos radical, chegou à Presidência em 2002, cargo ocupado até 2010. Fez a sucessora, a atual presidente Dilma Rousseff. Apesar de deixar o Planalto, continua influenciando os rumos do governo.

Ulysses Guimarães
Então presidente do PMDB, Ulysses Guimarães encarnou a imagem de luta pela redemocratização do país. Quando a emenda do voto direto foi rejeitada na Câmara dos Deputados, abriu mão de sair como candidato a presidente, na eleição indireta, em 1985, em favor de Tancredo Neves, numa chapa com José Sarney como vice. Presidiu a Assembleia Nacional Constituinte, tendo deixado uma marca forte no documento chamado por ele de “Constituição cidadã”. Presidiu a Casa por três vezes. Candidatou-se à presidência em 1989. Morreu em acidente de helicóptero em 1992.

Ricardo Ribeiro
Então presidente nacional do PTB e deputado federal, ele foi um dos oradores da noite que reuniu uma multidão no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Anos depois, resolveu deixar de disputar cargos eletivos e se dedicar ao esporte. Foi um dos presidentes do Botafogo de Ribeirão Preto.

Orestes Quércia
Era vice-governador de São Paulo, estado que assumiria anos mais tarde, e apoiador das Diretas Já. Tanto que foi um dos políticos que ingressaram com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para tentar levar a emenda que previa o voto direto, derrotada na Câmara, ao Senado. Sua gestão no governo paulista acabou marcada por escândalos de corrupção. Depois de deixar o Palácio dos Bandeirantes, em 1991, não se reelegeu a cargo eletivo. Tentou a Presidência da República, o Senado e o governo estadual. Quércia morreu em 2010, vítima de câncer.

Leonel Brizola
Depois de retornar do exílio imposto pelo governo militar e fundar o PDT, Brizola se elegeu governador do Rio. Após a pressão popular, resolveu apoiar a campanha pelas Diretas Já. Em 1989, candidatou-se à Presidência, sem sucesso. Elegeu-se governador do Rio pela segunda vez. Foi derrotado de novo na disputa para presidente, recebendo número insignificante de votos. Perdeu mais três eleições para diferentes cargos. Em 2004, depois de alguns problemas de saúde, Brizola morreu, vítima de um infarto agudo.

Fernando Henrique Cardoso
Senador pelo PMDB, por ser suplente na vaga de Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso tornou-se um dos grandes articuladores da volta da democracia, garantindo que não houvesse radicalização política. Na transição do governo Collor para Itamar Franco, de quem foi ministro das Relações Exteriores, destacou-se novamente. Em 1993, assumiu a Fazenda. Começou a implantar o Plano Real. Já no PSDB, foi eleito presidente da República. Reelegeu-se para mais um mandato. É reconhecido tanto pela vida política quanto pela produção acadêmica.

André Franco Montoro
Governador de São Paulo na época, tendo derrotado Luiz Inácio Lula da Silva, Franco Montoro se firmou como um das vozes mais atuantes em prol do retorno do voto direto. Esteve em todos os grandes comícios ao lado de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Tornou-se importante articulador entre os peemedebistas. Em 1988, descontente com os rumos do partido, ajudou a fundar o PSDB. Venceu duas eleições consecutivas para deputado federal, a partir de 1995. Mas não completou a segunda legislatura, morrendo em 1999, vítima de um infarto.

Tancredo Neves
Com uma longa trajetória política, Tancredo Neves era governador de Minas Gerais quando a agitação política se transformou no movimento das Diretas Já. Diante da rejeição da emenda que garantiria o voto direto na Câmara dos Deputados, foi escolhido para ser o candidato à Presidência da República, no sistema indireto. Acabou eleito, em janeiro de 1985, mas adoeceu gravemente, em março, na véspera de tomar posse. Morreu 39 dias depois, vítima de diverticulite. O país chorou a morte de Tancredo.
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