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Entrevista especial » Pierre Lucena: "Só há mudança quando se leva a educação a sério"

Publicação: 13/01/2014 14:19 Atualização:

O doutor em finanças Pierre Lucena assumiu o cargo de diretor acadêmico regional da Laureate, rede global fundada nos Estados Unidos de instituições acadêmicas privadas, com um objetivo arrojado: transformar a Faculdade Guararapes na melhor instituição particular de ensino superior em Pernambuco. Três meses depois de aceitar o desafio, o professor conversou com o Diario sobre o modelo atual e o futuro da educação no Brasil. Para ele, a sala de aula dos dias de hoje segue um formato enfadonho para os estudantes e precisa ser transformada para continuar atraindo os alunos, principalmente os de ensino superior. A educação do século 21, a docência nas universidades, os custos do sistema educacional e a relevância das pesquisas científicas desenvolvidas por professores universitários foram outros temas comentados pelo ex-editor do blog Acerto de Contas.

O americano Martin Carnoy, doutor em economia pela Universidade de Chicago e professor na Universidade Stanford, afirma que, no Brasil, as escolas atuam como no século 19, com alunos copiando uma lição do quadro, à moda antiga. Você concorda que as escolas ainda não estão preparando os alunos do século 21 como deveriam?

Quando você observa dois ambientes de interesse público é possível perceber isso. Imagine uma sala de cirurgia do fim do século 19, início do século 20 e uma sala de cirurgia hoje. Agora, compare a imagem de uma sala de aula do século passado com a de uma sala de aula atual. É possível perceber que, enquanto as salas de cirurgia mudaram bastante, pouca coisa mudou nas salas de aula. Tirando algumas inovações tecnológicas, a forma de trabalho é absolutamente a mesma. Para dar uma ideia da falência desse modelo, vale ressaltar que o aluno de ensino superior procura três coisas numa universidade: formação profissional, informação e socialização. Esses são os três pilares que despertam no aluno o desejo de estudar numa instituição de ensino superior. Hoje, percebemos que o aluno já tem acesso à informação em casa, de outras maneiras. Até a formação ele tem em casa, com a Educação a Distância (EAD). A socialização também pode ser feita fora da instituição. Então, o que vai fazer com que o aluno procure uma instituição de ensino se ele, teoricamente, já teria tudo fora da sala de aula?

Como, então, deveria ser a educação do século 21?
Grandes modificações são necessárias na sala de aula porque as pessoas ainda estão acostumadas com o modelo tradicional de ensino, tanto os professores como os alunos. Os professores aprenderam a ensinar desse jeito, e os estudantes também chegam à escola com a ideia de que aula é sentar e observar o professor transmitindo o conhecimento. Outro problema é o órgão regulador da educação, o MEC (Ministério da Educação), que força as instituições a permanecerem com essa estrutura de ensino. Quando eu falo de transformação educacional não falo em ensino a distância porque a EAD nada mais é do que a reprodução do mesmo formato de ensino em outra plataforma. Infelizmente, temos poucos exemplos de ensino revolucionário no país. O ambiente da sala de aula permanece pouco atrativo. É muito mais agradável ficar numa sala de cinema do que assistir a uma aula, por exemplo, mas ninguém consegue passar oito horas vendo um filme. No entanto, numa pós-graduação, exige-se que o aluno fique esse tempo assistindo às aulas. Por melhor que seja o professor, ele jamais poderá competir com um filme. Se você não consegue ficar no cinema, imagine numa sala de aula. Tornar a sala de aula num ambiente agradável é o grande desafio.

Uma das principais críticas de alunos do ensino superior é que alguns professores sabem muito, mas não conseguem transmitir o conhecimento de forma adequada. Como conciliar teoria e prática na docência do ensino superior?

Antes do governo FHC (Fernando Henrique Cardoso), atuavam, no Brasil, cerca de 3 mil professores do curso de administração. Hoje, são 40 mil. Observando esses números dá para perceber que é difícil ter bons professores formados em pouco tempo. A crítica dos alunos é absolutamente fundamentada e é por isso que a EAD faz tanto sucesso, pois o conteúdo é transmitido de forma diferenciada. A sala de aula é, de fato, um ambiente enfadonho. Cabe aos professores encontrar novas formas de ensino para que a busca pelo conhecimento seja algo agradável e não penoso. Isso exige muito esforço.

Por outro lado, muitos professores reclamam da falta de tempo para pesquisar. Como solucionar esse problema?

O problema do Brasil com relação a essa questão é que a profissão de pesquisador praticamente não existe no país. Essa atividade fica a cargo dos professores de ensino superior. Atribui-se ao professor uma função que nem sempre tem a ver com a docência. Nas instituições privadas de ensino superior, a questão é ainda mais séria porque a pesquisa é algo quase impensável. Não há financiamento por parte dos órgãos de incentivo à pesquisa. Além disso, como as instituições privadas se sustentam com as mensalidade e os alunos pagam por ensino e não por pesquisa, fica ainda mais difícil. Dentro das universidades públicas, o que se observa é a total irrelevância de 99% do que é produzido no âmbito acadêmico. Ninguém lê a maior parte do material que é feito. Falo isso, inclusive, sobre meu próprio trabalho. Dezenas de artigos que escrevi ao longo de minha carreira não foram lidos. Por outro lado, há seis anos, passei a escrever num blog que era procurado diariamente por 30 mil pessoas no Recife, mas que não tinha nenhuma contribuição científica. A pesquisa é absolutamente irrelevante na academia brasileira porque o Brasil não leva a pesquisa a sério. Se levasse, faria de forma profissional e não como é feita atualmente.

Dados do Censo do Ensino Superior 2012 mostram que os cursos de licenciatura não atraem os estudantes de ensino médio. O levantamento aponta que as matrículas na área aumentaram apenas 0,8%, entre 2011 e 2012, e representam apenas 19,1% do total. Os números preocupam educadores e o Ministério da Educação. Como atrair mais jovens para a carreira docente?

Em um dos últimos vestibulares da UFPE, no campus Caruaru, candidatos foram aprovados na licenciatura de física com média 2,8. Das 50 vagas disponibilizadas, apenas 23 foram preenchidas. Bastava sair do baixíssimo ponto de corte e já era aprovado. A nota mais alta dessa licenciatura foi 4,7. Em outras licenciaturas não foi diferente. Para o curso de matemática, por exemplo, apenas um candidato tirou nota acima de 5. Em química, teve aluno sendo aprovado com nota menor que 3. Nenhum candidato cotista se inscreveu nessas licenciaturas. Sabe por que o cotista não quis esses cursos? Porque o aluno de escola pública busca nas cotas uma chance de sair da miséria. Esse estudante não vê nessa profissão uma oportunidade de sair da situação em que se encontra porque ele conhece a realidade do professor das escolas públicas. Enquanto o país não melhorar a situação do professor, ninguém vai querer estudar para depois ganhar R$ 1,6 mil, que é o salário médio de um professor hoje. Eles não procuram as licenciaturas porque sabem que, dessa forma, não vão melhorar de vida e estão certos em buscar melhores oportunidades.

Países como Coreia do Sul, China e Chile que tinham índices educacionais semelhantes aos do Brasil há alguns anos ostentam números invejáveis atualmente. O que eles podem nos ensinar?


Eles nos ensinam que só há mudança quando se leva a educação a sério, e a educação pública não é levada a sério no Brasil. Não se pode achar que educação é um problema apenas social porque também é um problema econômico. Levar a educação a sério é travar debates que fujam do corporativismo e da mesmice. O retrato atual é o seguinte: o professor ganha pouco e produz pouco. Essa é uma equação desastrosa, pois há uma absoluta desmotivação com relação à profissão. É preciso gerir a educação com seriedade, com salários decentes para os professores. Enquanto isso não acontecer, não vamos mudar em nada.

Saiba mais

Pierre Lucena é diretor acadêmico regional da Rede Laureate. A posse oficial aconteceu em outubro do ano passado

Responde pela Faculdade
Guararapes, Cedepe
Business School e Faculdade
Internacional da Paraíba (FPB)

É formado em administração pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em economia pela UFPE e doutor em Finanças pela PUC-RJ

Na UFPE, ensinou finanças durante 17 anos e foi coordenador do curso de administração

Também coordenou o Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE

Foi candidato a reitor da UFPE e secretário-adjunto de Educação no governo Jarbas Vasconcelos

Foi coordenador de pesquisas do Porto Digital e atuou como editor do blog Acerto de Contas

É autor de diversos trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre mercado financeiro

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