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Granja São Bento » Comissão da Verdade de Pernambuco articula convocação de delegado de São Paulo

Tércio Amaral

Publicação: 12/12/2013 14:32 Atualização: 12/12/2013 16:43

Soledad Barret Viedma foi assassinada no massacre da Granja de São Bento, onde seis pessoas foram mortas por agentes da repressão militar. Foto: Juliana Leitão/DP/D.A Press (Juliana Leitão/DP/D.A Press
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Soledad Barret Viedma foi assassinada no massacre da Granja de São Bento, onde seis pessoas foram mortas por agentes da repressão militar. Foto: Juliana Leitão/DP/D.A Press

A Comissão da Memória e da Verdade de Pernambuco vai recorrer à Comissão da Memória e da Verdade Nacional para intimar o delegado do estado de São Paulo Carlos Alberto Augusto. Na época do regime militar (1965-1985), o mandatário teria agido como colaborador do aparelho de estado com o nome de Carlinhos Metralha e seria uma testemunha chave para desvendar o massacre da Granja São Bento, em Paulista. A chacina, ocorrida em janeiro de 1973, vitimou cinco militantes de esquerda, entre eles, a paraguaia Soledad Barret Viedma, raptada um dia antes numa loja de roupas femininas no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

O delegado já havia sido convocado, mas negou o pedido. As comissões da Verdade de Pernambuco e de São Paulo, inclusive, chegaram a pedir o afastamento do profissional, mas tiveram o pedido negado pelo governo de São Paulo. Apenas a Comissão Nacional, que é regida por uma lei federal, tem o poder de intimá-lo. A iniciativa foi anunciada depois da Comissão de Pernambuco coletar dois depoimentos após uma sessão pública, realizada nesta quinta-feira (12) no Ministério Público de Pernambuco, no bairro do Espinheiro, no Recife. Os membros da Comissão reforçaram a tese de que Carlinhos seria um dos braços de apoio de José Anselmo dos Santos, conhecido como Cabo Anselmo.

Na época, o Cabo era uma agente infiltrado na Vanguarda Popular Revolucionária (VRP) e se passava como “Daniel”, um simples fotógrafo atrás de novas experiências no Recife. “Mantive contato com Daniel em São Paulo, quando fui morar lá e perdi o direito de estudar no curso de medicina veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Ele sempre pedia para eu continuar no movimento estudantil, colaborar. Um dia ele pediu um encontro e mandou, no seu lugar, Carlos Alberto Augusto, para pegar uns jornais”, comentou o advogado José Moura, que por pouco não se converteu numa das vítimas do caso. “Mas, eu só soube que Carlinhos era um agente infiltrado quando eu estava na prisão em São Paulo. Pensei, agora me dei mal, prenderam um cara que eu conheço. Aí, os colegas na prisão advertiram que ele era um torturador famoso”.

A funcionária pública aposentada Sonja Maria Cavalcanti é uma das principais testemunhas do caso. Foi em sua loja, em Boa Viagem, que cinco homens sequestraram duas militantes de esquerda, Pauline Philippe Reischtul, de 26 anos, e Soledad Barret Viedma, de 28. Ela confirmou que Soledad teria ido, algumas vezes, em seu estabelecimento, com o Cabo Anselmo. No dia do sequestro, porém, ela argumentou que ele não estava. “Eram cinco homens, três entraram, quando meu marido apareceu no terraço da casa, eles apresentaram como policiais. Somente Soledad foi espancada”, relatou.

Sonja relatou, ainda, que procurou a delegacia de Boa Viagem na época, mas os agentes não quiseram registrar a ocorrência. Ela achava que teria sido vítima de um assalto. “No outro dia, quando eu li os jornais vi que terroristas internacionais foram mortas. Achei muito estranho. Meu marido então procurou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para registrar o caso, que não avançou”. Este depoimento de Sonja, em parte, já era esperado, mas a testemunha contribuiu com um ponto importante nas investigações do colegiado.

Membros da Comissão da Verdade apresentaram uma foto de época do delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo, Sérgio Paranhos Fleury, já falecido, que teria vindo ao Recife para coordenar o massacre. Sonja observou a foto, viu detalhes no rosto do agente e disse que teria 70% de chances dele estar entre os agentes que teriam ido à sua loja no dia do sequestro. As suspeitas são que os agentes, além de ganharem dinheiro por cada prisão e morte dos militantes de esquerda, ainda procuravam um dinheiro roubado de um político de São Paulo, fruto de corrupção.

 

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