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Ditadura » Emocionada, Sylia Montarroyos relembra torturas militares

Filipe Barros - Diario de Pernambuco

Publicação: 09/12/2013 16:59 Atualização:

Sylvia Montarroyos prestou depoimento à Comissão da Verdade DOm Helder Camara. Foto: Filipe Barros/Esp. DP/D.A Press  (Filipe Barros/Esp. DP/D.A Press )
Sylvia Montarroyos prestou depoimento à Comissão da Verdade DOm Helder Camara. Foto: Filipe Barros/Esp. DP/D.A Press
"Não existe explicação lógica para o que sofri. Os médicos dizem que é um milagre eu estar viva”. Assim a ex-presa política Syvia Montarroyos resumiu a violência que sofreu nas mãos dos militares durante a ditadura. Ela prestou depoimento na Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Camara nesta segunda-feira (9). O relato da primeira mulher torturada em cárceres do regime militar, presa por pertencer ao movimento de resistência, foi marcado pela emoção.

Depois de traçar um perfil de sua família na época, Sylvia contou como foi perseguida e torturada em Pernambuco na década de 1960 por oficiais do exército. "Fui presa em casa junto com meus irmãos e meu namorado na época, que era uruguaio. Fugi depois não por fugir, mas por causa do uruguaio que estava irregular no Brasil e não teria como comprovar ao país que estava aqui”, lembrou. Ela disse que, posteriormente, foram presos novamente. "Quando chegávamos na delegacia, um equipe de televisão estava filmando e o delegado disse que eu tinha cara de anjo mas que era diabólica, eu cuspi na cara dele e lá dentro fui queimada, espancada”.

Sylvia foi transferida da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco para o Exército, onde passou a ser duramente espancada. No local, ela ficou presa em uma jaula pequena, onde sofreu torturar tão violentas que chegou a perder a razão, teve crise de identidade e leva até hoje uma pneumonia e reumatismo decorrentes daquela época.

"Eu jamais cheguei a dizer alguma coisa, denunciar meus companheiros e, por isso, eles me prenderam numa jaula dentro do quartel de Tejipió durante 30 dias, 15 num subterrâneo escuro e 15 na floresta do quartel, ao relento, nua e sendo alimentada com meio pão e meio copo de água. Cheguei a pesar 23 kg devido a essas torturas. Depois disso, fui levada ao Hospital Psiquiátrico da Tamarineira e fui atendida pelo doutor Tácito Medeiros que, junto com outros residentes, elaborou um laudo que dizia que eu deveria voltar ao bem social porque o ambiente de prisão era nocivo a minha saúde”, contou Sylvia. O laudo do médico, segundo Sylvia, a livrou de voltar ao quartel do Exército.

No Livro Réquiem por Tatiana, lançado no Recife, autora relata sua história de presa política. Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D.A Press  (Edvaldo Rodrigues/DP/D.A Press )
No Livro Réquiem por Tatiana, lançado no Recife, autora relata sua história de presa política. Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D.A Press
Depois de deixar o Hospital da Tamarineira, Sylvia teve um novo mandado de prisão expedido pela polícia. "Tive que fugir de Pernambuco e fui para a Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina e Guatemala, mas sempre voltava ao Brasil e a Pernambuco com o nome português e com o último nome do meu marido português”. Sylvia, além de ser considerada perigosa terrorista e chamada por “Tatiana”, passou a ser perseguida pela CIA, devido a atuação na guerrilha da Guatemala, onde era casada Luiz Garcia, que morreu depois que seu carro explodiu. A ex-presa voltou a Europa em 1970, onde teve seu primeiro filho.

Em seu depoimento, Sylvia nomeou o major Djalma, o capitão Bismarques   o secretário de Segurança na época, Armando Samico, como responsáveis pelas torturas.

O coordenador da Comissão da Verdade e relator do caso, Fernando Coelho, afirmou que o depoimento de Sylvia vai permanecer na memória da comissão e dos pernambucanos. "Sylvia é um exemplo de quem luta por liberdade e melhorias nas condições de vida das pessoas. Nós divulgamos o caso com a sensação de dever cumprido. Ela nos deu a oportunidade de ouvir o que ela passou em Pernambuco para que isso nunca mais se repita", declarou.

Presente na sessão, o médico Tacito Medeiros, que chegou a receber  Sylvia no Hospital Psquiátrico da Tamarineira, disse não se recordar de ter assinado o laudo citado por ela. "Não me recordo de ter assinado esse laudo, mas lembrei do nome dela e fui juntando as histórias, costurando as lembranças. Soube de uma menina que chegou lá com pedaços da carne do corpo podres, com pus petrificado e corpo em carne viva”, recorda o médico. Ele lembrou também dos residentes que ajudaram Sylvia, prolongando os seus tempos de trabalho para ajudá-la, como Fernando Farias, Fernando Rocha e Djalma Santos.

Sylvia de Montarroyos conta toda essa história em detalhes no seu livro lançado no Recife intitulado Réquiem por Tatiana (Edição do autor/456 páginas) que faz parte de uma trilogia a ser completado nos próximos anos. O segundo será lançado daqui a um ano e ela promete voltar ao Recife. O terceiro, de acordo com a autora, está em processo de construção. O lançamento do primeiro livro teve apoio da Comissão da Verdade e da Companhia Editora de Pernambuco.
 
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