Pernambuco.com



  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

São Paulo » Diretor da Siemens diz que ex-presidente da empresa pode ter aberto conta para pagar propinas

Agência O Globo

Publicação: 04/12/2013 16:54 Atualização:

O ex-presidente da Siemens Adilson Antonio Primo pode ter usado uma conta aberta em Luxemburgo para transferir dinheiro de propina a funcionários públicos brasileiros. A suspeita foi informada à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal pelo diretor de investigação em compliance da Siemens AG, Mark Willian Gough, segundo reportagem publicada nesta quarta-feira pelo jornal "O Estado de S.Paulo". A conta, aberta no Banco Itau Luxemburgo, recebeu US$ 7 milhões entre 2003 e 2004 em transferências de contas regulares da Siemens e o dinheiro foi destinado a offshores que não estavam ligadas a negócios da companhia.

A existência da conta foi denunciada por um funcionário da subsidiária brasileira e levou à demissão de Primo, que move ação trabalhista contra a Siemens na 89ª Vara do Trabalho em São Paulo. Primo afirma que esta conta foi aberta com autorização da Siemens alemã, mas Gouch afirmou em depoimento que a matriz não tinha conhecimento dela - não fazia parte da contabilidade e não era declarada em documentos oficiais - e, por isso, ela foi alvo de investigações internas.

Segundo Gough, a conta foi aberta em nome da offshore Singel Canal Services CV, com sede na Holanda, que funciona no endereço da holding Trench Eletric Holding BV. A Singel, por sua vez, tinha como sócias a fundação privada Suparolo, em Curação, e a South Birkdale Limited, esta última aberta por quatro empregados da Siemens: Raul Melo de Freitas, José Antonio Lunardelli, Jurgen Brunowsky e José Mattos Junior. Um ano depois, houve mudança dos nomes. Apenas Raul Melo de Freitas permaneceu, entrando do lugar dos demais Primo, José Manuel Romero Illana e Sérgio de Bona.

Gough disse que todas as transferências de contas da Siemens para a conta de Luxemburgo foram feitas sob ordens de Primo por Lunardelli, que era chefe de contabilidade da subsidiária brasileira e tinha poder para movimentar as outras duas. Gough disse que as transferências foram feitas sem qualquer documentação correspondente.

Gough afirmou que a conta de Luxemburgo só poderia ter suas utilidades: desvio de dinheiro para os próprios funcionários da subsidiária brasileira ou para pagamento de propinas.

Gough disse que não pode ter acesso a documentos das movimentações da conta no Itau Luxemburgo, pois as autoridades deixaram apenas que visse, sem poder tirar cópia. Por isso, ele pode anotar apenas as transferências de maior valor, num total de US$ 4 milhões. Os beneficiários foram empresas com sede em paraísos fiscais e sem donos identificados: Amicorp (UK) Limited, Amicorp Southern Cone Holdings, Neisse Investment Corp, Limanda Management, Frida Holding Corp, Lortrade e Eynort Port SA. A única pessoa física beneficiária de depósitos foi Marcos A. B. Honaiser, que recebeu US$ 30 mil no banco UBS na Suíça. Neste documento, consta a rubrica de Primo e Newton Duarte, outro funcionário da subsidiária e responsável pelo setor de energia.

Segundo Gough, Romero e Bona não gostavam de operar as transferências e tinham de fazê-las a mando de Primo, mas desta vez quiseram ter algum documento como prova. Para se ter uma ideia, Romero guardou esse documento na casa do pai dele, na Espanha, durante anos.

Honaiser, segundo Gough, foi identificado como funcionário da Marinha e membro do Conselho nacional de Energia Nuclear.

Gough disse que, após a conta ser descoberta e a mando da matriz, Romero conseguiu transferir de volta para a Siemens US$ 600 mil. Lunardelli já se aposentou e não quis contribuir com informações sobre a conta nas investigações internas feitas pela empresa.

O executivo da Siemens AG afirmou que a movimentação da conta era feita também com auxílio de Carlos de Vasconcelos, do Itau em Luxemburgo, e a estrutura societária da conta foi montada com ajuda do advogado brasileiro Roberto Justo, do escritório Choab, Paiva e Justo. Os advogados também não deram informações concretas pedidas pela Siemens.

Adilson Antonio Primo assumiu a presidência da Siemens no Brasil em 2001 e foi demitido por justa causa em 2011, por quebra de confiança. Primo moveu ação trabalhista contra a Siemens e juntou a essa ação documentos da conta em Luxemburgo.

Segundo Gough, Primo sempre negou para a empresa a existência da conta, mas acabou usando documentos dela na ação trabalhista, o que tornou evidente que ele não só conhecia a conta como possuía documentos dela.

Gough afirmou que só este ano, como resultado da cooperação internacional com autoridades suíças, foram identificadas as contas das empresas Limanda e Neisse, que foram criadas por advogados no Panamá e pertencem a três brasileiros.

A Neisse pertence a Antonio Pires de Almeida, Ana Lúcia Pires de Almeida e Paulo Pires de Almeida - os dois primeiros já falecidos. Foi identificado nela um depósito de US$ 150 mil.

A conta Limanda foi usada para transferir dinheiro para a Cristal Financial Services, que fica nas Ilhas Virgens Britânicas e pertencem aos brasileiros Raul Henrique Srour e Richard Andrew de Mol Van Otterloo.

Otterloo e Srour atuaram como doleiros e foram condenados pela Justiça Federal em 2001 a prestar serviços comunitários e doar 50 cestas básicas por terem gerido contas que movimentaram US$ 1 bilhão. Ambos foram pegos na Operação Farol da Colina, desencadeada em 2004, e denunciados pela Procuradoria da República por violação aos artigos 16 (manter instituição financeira sem autorização) e 22 (evasão de divisas) da Lei 492/86 (Lei dos Crimes contra o Sistema Financeiro). Suas penas foram reduzidas porque ambos assinaram acordo de delação premiada.

Segundo Gough, autoridades de Luxemburgo têm interesse em contato com autoridades do Brasil. Ele entregou documentos para a Polícia Federal obtidos durante a investigação interna promovida pela Siemens AG.

Banestado
Paulo Pires de Almeida é filho do doleiro Antonio Pires de Almeida, que foi pego nas investigações das contas CC5 do Banestado. Almeida movimentou mais de US$ 1 bilhão entre 1995 e 2002 com offshores e contas para movimentação de dinheiro de origem ilícita no exterior. Na Operação Macuco, decorrente das investigações do Banestado, o doleiro foi denunciado pelo Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro e ocultação de bens, formação de quadrilha e falsidade ideológica. Ele operava as offshores Gatex, a Harber, a Venus e a Sorage, por onde transitaram quase US$ 2 bilhões.

Em março do ano passado, Almeida, aos 88 anos, foi condenado a três anos e nove meses em regime aberto, em função da idade, e doação de 300 cestas básicas. Em 1999, Almeida chegou a ser apontado pela Drug Enforcement Administration (DEA) a agência americana de investigação de tráfico de drogas em 1999 como responsável pela lavagem de dinheiro de traficantes. Almeida negou.

A condenação de Almeida teve como alvo as operações da Turist Câmbio, usada para as remessas ilegais. Ao condenar funcionárias da casa de câmbio, o juiz federal substituto Marcelo Costenaro Cavali observou que não havia nada contra a conduta social nem maus antecedentes e acrtescentou: "Os motivos do crime e as circunstâncias do delito merecem reprimenda além do mínimo legal, pois firmados de modo sistemático e com organização empresarial. Nada há que considerar quanto ao comportamento da vítima. Já as consequencias do delito apresentam impacto social, pois serve de canal para a lavagem de dinheiro de diversos delitos, como corrupção, sonegação de impostos e tráfico de drogas."

Na ação envolvendo a Turist Câmbio, Paulo Pires de Almeida foi absolvido. Os bens, que estavam arrestados, foram liberados.

Esta matéria tem: (0) comentários

Não existem comentários ainda

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »