Depois de quase dois meses com a sua venda proibida, o livro "Companheiros - A hora e a vez dos metalúrgicos de Sorocaba", que tem apresentação escrita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi liberado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo no início deste mês. A censura foi decretada em dezembro passado a pedido de um dos filhos do personagem principal da narrativa - o sindicalista Wilson Fernando da Silva, mais conhecido como Bolinha, amigo de Lula.
No ano passado a Associação Nacional dos Editores de Livros ajuizou uma ação no Supremo Tribunal Federal com o objetivo de acabar com a necessidade de autorização dos biografados para a publicação de biografias.
Filha do sindicalista, Daniela Silva Fernandes alegou na Justiça que o livro era vexatório à família ao relatar que o pai liderava greves e esteve preso. Além da censura, ela pediu indenização de R$ 31 mil.
Os demais integrantes da família - a viúva e outros dois filhos - autorizaram a obra, de autoria do jornalista Carlos Araújo e patrocinada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, no interior paulista. Mas, em dezembro passado, o juiz da Vara Cível de Sorocaba Mario Gaiara Neto acolheu o pedido de Daniela e proibiu a venda do livro, poucas semanas após o seu lançamento.
O Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba recorreu da decisão, e, no último dia 7, a liminar foi derrubada. Até o julgamento do mérito da ação, a obra poderá ser comercializada normalmente.
O livro conta a história do movimento sindical metalúrgico de Sorocaba e tem Bolinha como um dos personagens principais. O sindicalista e Lula se conheceram nos anos de 1960, quando foram colegas de trabalho na metalúrgica Villares, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Bolinha era militante sindical e participou da organização de greves na região na década de 1970. De lá, foi para Sorocaba com a missão de estruturar o sindicato dos metalúrgicos na região. Vítima de um câncer, ele morreu em 2008. Lula cancelou toda a agenda dele como presidente no dia da morte do amigo e foi ao velório.
Para o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Flávio Abramovici, "o livro não visa a macular a honra do genitor da autora". O magistrado citou em sua decisão uma frase de Lula na capa do livro para consolidar o entendimento: "Poucas vezes, e eu conheço muitos dirigentes sindicais, muitos trabalhadores, conheci alguém com a perspicácia política, a inteligência e o grau de companheirismo do Bolinha. Ele deixou saudades e um exemplo que este livro, que conta a sua história e a do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, leva para as novas gerações de trabalhadores."
O caso recentemente mais rumoroso de censura a livros pela Justiça foi o da biografia não autorizada do cantor e compositor Roberto Carlos. Em 2007, após meses de batalha no tribunal, o artista conseguiu a interrupção definitiva da produção e comercialização de "Roberto Carlos em detalhes", de Paulo Cesar de Araújo. No ano passado, um juiz da Infância e da Juventude pediu que o best-seller "Cinquenta tons de cinza", de E. L. James, fosse vendido lacrado para evitar que menores acessassem o conteúdo nas livrarias.
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