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Cidade fantasma » Recesso parlamentar e as férias de ministros deixam esvaziada a Brasília do poder

Correio Braziliense

Publicação: 13/01/2013 08:21 Atualização: 11/01/2013 18:33

Salão Verde do Congresso Nacional está praticamente vazio nos últimos dias, um exemplo de como anda Brasília. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Salão Verde do Congresso Nacional está praticamente vazio nos últimos dias, um exemplo de como anda Brasília. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

As disputas políticas anunciadas para 2013 têm potencial para tirar o sono e o sossego das principais lideranças do país. No início de fevereiro, serão eleitos os novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. O ano também será decisivo para a corrida presidencial de 2014 e para a definição das alianças estaduais. Mas a tensão latente no universo político contrasta com a monotonia que impera nas estruturas do poder de Brasília. Quem circular pelos corredores do Congresso em janeiro dificilmente vai concluir que, nos bastidores, há um embate ferrenho por espaço e poder.

O recesso parlamentar, aliado às férias dos titulares dos principais ministérios da Esplanada, suscita uma debandada generalizada. Além de deputados, senadores e ministros, as figuras que orbitam nesse cosmo político, como lobistas, advogados e assessores, também aderem à fuga coletiva, deixando Brasília irreconhecível. O burburinho dá lugar ao marasmo. Nos ambientes de negociações e negociatas, há espaço apenas para turistas que, como coadjuvantes, fotografam solitários os cenários das tomadas de decisões do poder.

O estouro dos fogos de artifício que anunciam a chegada de um novo ano é o sinal de alerta para o esvaziamento completo do universo político da cidade. A virada do calendário é quase um salvo-conduto para os engravatados que circulam pelos gabinetes da capital: as ruas de Brasília esvaziam-se na mesma proporção em que os políticos lotam o aeroporto rumo aos estados de origem ou à praia mais próxima.

O formato adotado nas eleições para a Mesa Diretora das duas casas do Congresso colabora para o êxodo político. Não há campanha declarada, peregrinação por gabinetes ou distribuição de panfletos com propostas dos candidatos que pleiteiam uma vaga de comando no parlamento. Boa parte das articulações é feita nos estados, longe do Congresso. Quem não tem a benesse da folga prolongada vai aos gabinetes apenas para bater o ponto, já que o recesso branco é quase uma tradição oficializada.

Impacto

Brasília vai muito além da Esplanada dos Ministérios e dos núcleos de poder, mas é inegável o impacto da ausência dos políticos na vida da cidade. O comércio é o primeiro a sentir os efeitos desse esvaziamento. Principalmente os restaurantes. Na capital federal, conversas decisivas costumam ocorrer entre goles dos vinhos indicados pelos melhores sommeliers e em meio a garfadas de pratos da haute cuisine.

 

O recesso afeta principalmente os estabelecimentos de gastronomia de alto padrão. Como além do salário polpudo os parlamentares têm cota mensal para gastar com alimentação, deputados e senadores são clientes tratados como reis nos restaurantes da cidade, com gastos muito acima da média. E o desaparecimento dos políticos das mesas é como uma bomba no faturamento desses comerciantes.

O empresário Jorge Ferreira, dono de alguns dos bares mais badalados da capital, como o Armazém do Ferreira e o Feitiço Mineiro, conta que janeiro é o pior mês para os negócios. E esses prejuízos são causados pela fuga de políticos? “Não falo só de políticos, falo da burocracia estatal como um todo. Tem o recesso do Congresso, mas também do Judiciário e de boa parte do Executivo. No GDF, a maioria dos servidores tira férias nessa época. Então não é nada inusitado, é esperado, mas é sempre muito negativo”, explica o empresário. Ele lembra que, no passado, restaurantes fechavam as portas nessa época. “Hoje em dia, a gente aproveita para dar férias para a maioria dos funcionários ou para realizar obras. Nossa preparação para janeiro é como a dos ursos para o inverno: a gente sabe que o mau tempo vai chegar, então a gente se organiza para hibernar”, brinca Ferreira.

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