Onde sobra, onde falta

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 13/06/2018 03:00

Além de ajudar a despertar o Brasil para a insensatez que sempre foi o desenvolvimento de um modal único, o rodoviário, desprezando as ferrovias que fizeram o progresso de todas as nações, e além de inaugurar uma nova forma de mobilização, quase sem lideranças, a dos meios digitais – a terrível greve dos caminhoneiros, que paralisou completamente o país, escancarou, aos olhos de todos os brasileiros, a extrema desigualdade de recursos entre nós. Faltam recursos em muitíssimos setores, faltam para imensa parcela da população, da qual os caminhoneiros são apenas um caso. Todos os serviços públicos estão precarizados. Tudo parece estar ainda por ser feito. Não há, em setor algum, termo de comparação entre a nossa situação e os países do primeiro mundo.

No entanto, recursos sobram, e muitos. Sobram na gastança desenfreada e incompetente – nas obras inacabadas, mal planejadas, e ainda mais mal executadas e, ao cabo, paralisadas. Sobram no sobrepreço da corrupção, nos milhões, ou bilhões, que são desviados para os bolsos desses grandes canalhas nacionais, para os quais a prisão ainda é muito pouco. Sobram recursos nos Poderes Legislativo e Judiciário, nas mordomias indecentes que eles se permitem cinicamente, no número absurdo de assessores (não concursados) que infestam os gabinetes dos parlamentares, no número excessivo dos próprios parlamentares (para que tantos deputados federais e estaduais?), no absurdo da existência de vereadores que não fazem nada (e ainda querem criar mais municípios, sem nenhuma viabilidade, somente para os faustosos cargos públicos que deles decorrem, faustosos vereadores e pencas de assessores inúteis).

Pode faltar dinheiro para a moradia dos pobres. Sobra para o auxílio- moradia dos grandes. Pode faltar dinheiro para hospitais, para infraestrutura, para escolas, para a conservação das estradas. Sobra para os aviões exclusivos dos políticos que não admitem andar de avião de carreira. Pode faltar dinheiro para a alimentação dos pequenos. Sobra para a fartura da corrupção. A corrupção cria formas sofisticadas quase inimagináveis (que inventividade criadora tem o mal!): até roubar merenda escolar, até roubar taxas dos empréstimos consignados, até vender cartas sindicais... Metem deslavadamente a mão no bolso dos grandes (aos quais assacam para obter propinas e garantir sobrepreços) tanto quanto no dos pequeninos, que não têm o menor pudor de extorquir. São gênios do mal. Não: são demônios, que a sociedade precisa vomitar.

Cortar gastos? Nem pensar. Se há alguma coisa de que esses governos não cogitam é cortar gastos. O que fazem é aumentá-los todo dia, toda hora, sobretudo em seu próprio favor. Fundo partidário, fundo eleitoral... Dinheirama para financiar esses grandes ladrões nacionais (claro que há notáveis exceções entre os políticos).

De onde sai toda a dinheirama que é desviada e desperdiçada? Óbvio que é do bolso de todos nós, da sociedade assaltada diariamente por essa corja que se apoderou do parlamento e dos cargos executivos. E absolutamente não era assim antes. Na escala monumental de agora, tudo isso é fenômeno recente – dos últimos 20 anos.

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