Uma Olinda judaica

Jacques Ribemboim
Escritor

Publicação: 08/06/2018 03:00

No século 16, o burgo de Duarte Coelho era famoso por abrigar judeus praticantes, em pleno período de interdição do judaísmo em Portugal e na Espanha. Oficialmente, eram cristãos-novos, por haverem sido convertidos ao catolicismo, mas aqui, em Pernambuco, continuavam a exercer a antiga religião.

Pouco a pouco, a Vila de Olinda passou a abrigar algumas sinagogas caseiras, ou “esnogas”, como se dizia antigamente. A principal delas era comandada pelo casal Diogo Fernandes e Branca Dias, que também mantinham cultos secretos no engenho que possuíam em Camaragibe.

Naquela Olinda Judaica, cada qual tinha sua função. O alfaiate Thomas Lopes, por exemplo, desfilava com um pano amarrado à perna, sinal de chamamento para as festividades do calendário religioso. Por sua vez, James Lopes da Costa, o poderoso e rico mercador de açúcar, cuidava para que nada faltasse nos rituais do e shabat (mais tarde ele voltaria à Europa e ajudaria na construção da Sinagoga Portuguesa de Amsterdã). A grande maioria desses cristãos-novos morava entre o Varadouro e a Rua dos Palhares (hoje, Bispo Azeredo Coutinho).

É interessante notar que as práticas judaizantes eram facilmente reconhecidas pela população não judia, mas de alguma forma continuavam toleradas, pelo menos até a chegada da Inquisição a Olinda, em 1593, quando o visitador do Santo Ofício se estabeleceu, com toda a pompa e circunstância, à entrada da Matriz do Salvador (Igreja da Sé) para receber denúncias e confissões.

Foi um deus-nos-acuda, literalmente falando. Vizinhos acusavam vizinhos de judaizarem, irmãos delatavam irmãos, devedores acusavam seus credores e até maridos traídos enxergavam ali uma possibilidade de vingança.

Um dos denunciados foi o poeta Bento Teixeira, autor da primeira obra literária brasileira, a Prosopopeia, de 1601. A própria Branca Dias foi uma das recordistas em receber denúncias, pois mantivera por muitos anos uma escola de bordar e algumas de suas ex-alunas se mostraram pródigas em dar com a língua nos dentes. Sorte de Branca não estar mais viva naqueles anos e não ter que passar pelos tormentos da Inquisição, pois falecera antes, bem velhinha e de morte natural.

Esse período de “criptojudaísmo olindense” perdurou pelo menos até o ano de 1631, quando os holandeses atearam fogo à Vila, obrigando seus moradores a se transferirem para o campo ou para a incipiente Recife.

Atualmente, forma-se em Olinda uma nova comunidade israelita, constituída pelos descendentes dos antigos “marranos” e sua sinagoga improvisada funciona na sede do Instituto Histórico de Olinda. Improvisada, mas não às escondidas.

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