O vício do fake

Duciran Van Marsen Farena
Procurador regional da República

Publicação: 07/06/2018 03:00

Uma pessoa bem intencionada me envia a foto de um jovem. Seu olho direito está uma massa disforme, e dele corre um fio de sangue até o queixo. Abaixo, uma mensagem - “não é pelo racionamento, pelas filas… é para que “se vayam todos”. Imediatamente, penso no fotógrafo que perdeu o olho atingido por uma bala de borracha da polícia do Tucanistão durante os protestos de 2013, mas desse ninguém passou foto pelo whatsapp... É curioso como mesmo pessoas inteligentes tendem a dar crédito automático a tudo que vem pelos grupos de whatsapp -  têm que ser convencidas de que não é preciso estocar comida, que batalhões não seguem para Brasília nem Temer decretou estado de sítio - enquanto mantêm uma postura de ceticismo quanto à mídia tradicional – justamente o fenômeno que gerou o Trump. Eu não dou crédito automático a nenhuma informação, mas desconfio imediatamente de tudo que me mandam no whatsapp. Voltemos ao jovem ferido nos protestos da Venezuela. A foto me comove, sou contrário a todos os governos ilegítimos, como o de Maduro e o nosso, mas aí é que mora o perigo. Imagino um “foca” (ainda se usa esta terminologia?) estilo Peter Parker, entrando na redação do Planeta Diário (ou seria este o jornal do Superman?) com a mesma foto. O editor pergunta: Quem é esse jovem, quando foi ferido? Não sei. Ele autorizou tirarem esta foto? Não. E esta frase abaixo, foi ele que disse? Não sei. Você tirou a foto? Não. Aonde raios a conseguiu? Alguém me repassou. Quem? Não sei. Obviamente, nosso “foca” não iria muito longe… A mídia tradicional pode ser manipulada, atender a interesses políticos, econômicos ou mesmo pessoais de seus proprietários, mas tem alguns limites – os grupos de whatsapp não. Mesmo o jornalzinho de uma conhecida igreja neopentecostal, entregue-me gratuitamente, mantém certa postura “jornalística”: no culto podem até dizer que a igreja católica é do demônio, mas ali há notícias sobre escândalos de pedofilia, com as devidas referências… Refletindo melhor sobre a foto, chego à conclusão de que é falsa: quem, gravemente ferido no olho e sangrando, iria posar quase que serenamente para a lente? O fato da causa ser justa, ou ajustada ao que pensamos, não torna tudo que recebemos supostamente em favor dela uma verdade. Mais forte, no entanto, parece ser o vício do fake - um círculo vicioso de retrolimentação de nossas próprias crenças - capaz de distorcer qualquer visão objetiva dos fatos e, se tornado regra geral, colocar em risco a própria existência da sociedade democrática.

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