As Suaves Amazonas da Abolição

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 05/06/2018 09:00

Elas não eram muito numerosas, no começo: uma dúzia de mulheres cujos nomes aparecem ao lado dos homens em Sociedades Abolicionistas, como A Nova Emancipadora ou o Clube do Cupim que, no Recife, se empenhavam em denunciar os horrores da escravidão, no final do século 19. Claro, a luta havia começado antes, já em maio de 1863 Castro Alves, que fracassara ao tentar matrícula na Faculdade de Direito, recitava no Santa Isabel seus primeiros versos abolicionistas e publicava em As primaveras, A Canção do Africano. Foi preciso mais de  quarto de século para a vitória final e o Brasil deixava de ser o último pais da América a abolir – pelo menos oficialmente, sabemos – a escravidão. Os estatutos das associações abolicionistas anunciavam o teor da luta: libertar escravos por todos os meios. Foi então que as mulheres decidiram criar sua própria associação de abolicionistas, a Ave Libertas (salve liberdade) e assinalavam seu intento de libertar “todos os escravos do município do Recife por todos os meios lícitos e legais ao seu alcance”. Isto significava que buscariam libertar os escravos comprando cartas de alforria, por exemplo, enquanto que o Clube do Cupim utilizava meios ilegais e subversivos, como roubo de escravos, denúncias de maus-tratos através de jornais, ocultação de negros fugidos, envio clandestino dos infelizes para o Ceará, onde a Abolição já acontecera. No segundo artigo dos Estatutos, a Ave Libertas insiste no caráter humanitário (e feminino?) de sua atuação: iam proteger a sorte dos escravos “impetrando de seus senhores, por todos os meios brandos e suasórios a cessação de maus-tratos, castigos e torturas” ...Anunciava a receita da Sociedade: “mensalidades das sócias, donativos, resultados de subscrições promovidas por comissões, benefícios, loterias e subscrição requeridas ao governo.” Durante quatro anos aquelas mulheres conseguiram publicar dois números de jornais, realizar concerto beneficentes no Santa Isabel, organizar quermeses e passeatas pelas ruas da cidade, promover conferências sobre o assunto, no Recife e em outras cidades do Brasil. E sobretudo, comprar cartas de alforria para mais de trezentos escravos – e isto num momento em que era alto o preço dessas cartas, pois  já havia acontecido a Lei do Ventre Livre, dos Sexagenários e fora proibido o Tráfico negreiro. Ontem, em nossa reunião da Academia Pernambucana de Letras, falamos sobre essa participação feminina na luta pela Abolição, luta que durante anos se ignorou, deixada à parte pelo brilho da atuação de homens como João Alfredo, Regueira Costa, Nabuco, José Mariano. Lembramos dona Leonor Porto, a costureira, Maria Amélia de Queiros, a professora que advogava a causa em conferências inflamadas através do Brasil, e a pessoa de Dona Olegarinha, celebrada pelo filho, o poeta Olegário Mariano, que cantou a presença suave mas decidida da mãe, vendendo suas joias e escondendo escravos em sua casa no Poço da Panela. Tudo isso está registrado em Suaves Amazonas, publicado em 1999 pela Edufpe, e que está a merecer reedição, pela Cepe ou pela própria Edufpe,  neste  2018, quando se comemora mais um aniversário da Abolição.

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