A UFPE do presente

Anderson S. L. Gomes
Professor titular de Física na UFPE e membro titular da Academia Brasileira de Ciências

Publicação: 31/05/2018 03:00

Recebi do Reitor Anísio Brasileiro, da UFPE, o documento UFPE FUTURO, que é um projeto elaborado pela atual gestão da UFPE, construído pelo Reitor e mais quatro colegas professores. Agradeço ao Reitor a gentileza de ter me enviado o documento, que ainda não está amplamente divulgado. Tive a honra de acompanhar o Reitor em recente viagem institucional para assinatura de convênio com uma importante universidade em Moscou, e naquela ocasião repassei meus comentários sobre o documento. Neste artigo, descrevo alguns aspectos das minhas observações.

De partida, achei muito louvável a iniciativa do Reitor em pensar e registrar, com alguns colegas, um rumo para o futuro da UFPE. A UFPE é uma “universidade abrangente”, atuando desde a pesquisa básica em ciências e tecnologias até às artes, ciências humanas e na saúde. Conforme comentei com o Reitor, “senti falta” no documento de um olhar mais profundo para vários destes temas. O documento é, na minha opinião, muito bom no que tange à tecnologia e inovação, didaticamente bem formulado, e apresenta na terceira parte as novas propostas, que incluem a reformulação dos três campi atuais, uma ação voltada para a indústria criativa no Bairro do Recife e a concepção de um novo campus em Goiana para tecnologias avançadas. Estes aspectos estão associados a uma nova forma de relação ensino-aprendizagem, além de um olhar para a “economia do aprendizado”, que de acordo com os especialistas já está “na praça”, em substituição à economia baseada no conhecimento.

Do que senti falta? Inicialmente, de um olhar para o presente! Como está a UFPE no presente? Como estão nossos cursos de graduação de forma geral, e em todas as áreas? Como está o impacto social de nossas ações e para onde estão indo nossos estudantes? Como estamos nos diversos indicadores que colocam a UFPE em comparação com outras instituições de ensino superior do mesmo porte, na região Nordeste, no Brasil e no Mundo? Já ouvi em muitos fóruns internos que a UFPE é uma “universidade de pesquisa” (classificação que eu particularmente não gosto, pois somos bem mais abrangentes que a pesquisa).

Como estamos neste aspecto de pesquisa e pós-graduação? Sei que, na pós-graduação, crescemos recentemente, mas será que crescemos na mesma taxa ou mais que nossos pares? Nada disso aparece no documento, para compor e embasar a proposta para o futuro, muito menos para propor estratégias de curto prazo. Em segundo lugar, a proposta em si não contempla áreas importantes como a formação de professores, o papel das ciências humanas e sociais, o papel social das áreas da saúde. Em terceiro lugar, senti falta de uma abordagem para a manutenção dos estudantes, técnicos e professores nos campi. A qualidade de vida no campus Recife, por exemplo, é muito aquém do que é necessário para uma Universidade ativa. E como vai ser isso no futuro? Temos propostas? Finalmente, senti falta de uma discussão sobre a qualidade acadêmica do que é realizado na pesquisa básica e aplicada, considerando não só os resultados esperados, mas principalmente seu impacto.

O documento UFPE FUTURO tem um grande valor, ao ter sido elaborado para pensar a UFPE de médio e longo prazos. Quando vier a ser amplamente divulgado, as sugestões pertinentes deverão ser agregadas, e os próximos gestores terão em mãos uma proposta concreta, podendo ou não fazer o devido uso. No entanto, a UFPE DO PRESENTE precisa de ações já!  Afinal, sabemos que “o futuro a gente faz agora”, como dizia o saudoso Eduardo Campos.

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