A morte nos hospitais

Moacir Veloso
Advogado

Publicação: 30/05/2018 03:00

Esse episódio ocorreu em 2012. Maria José, minha secretária doméstica, havia sido submetida a uma histerectomia no Hospital Getúlio Vargas, aqui no Recife. Alguns dias depois, no feriado de 1º de maio, pelas seis da manhã, recebi um telefonema de Fábio, um taxista amigo meu e de Maria José. Muito apreensivo, disse-me ele: doutor, estou aqui na emergência do Getúlio com Maria José. Os pontos das cirurgias estouraram e ela está tonta e sangrando muito. O problema é que a atendente não quer fazer a ficha de atendimento, dizendo que o sistema está fora do ar. Pedi então para que ele passasse o celular para ela. Alguns segundos e Fábio retorna: doutor, ela disse que não vai falar com o senhor porque não o conhece. Crime em andamento   (omissão de socorro), resolvi arrematar: Fábio, faz o seguinte, diz bem baixinho no ouvido dela que vai chamar a Polícia Militar para prendê-la por omissão de socorro. Mais alguns segundos, e vem Fábio, doutor, ela abriu. Está fazendo a ficha à mão - respondi: valeu Fábio, estou indo para aí. Chegando lá, deparei-me com o caos. Corredores lotados de pacientes em cadeiras de rodas, em macas e até no chão. Movimentação frenética de médicos, enfermeiras, técnicas em enfermagem, maqueiros, etc..., num esforço heroico para dar assistência a uma miríade de desafortunados; seus gritos, gemidos e imprecações deixaram-me atordoado diante daquele umbral. Afinal, consegui localizar Maria José. Ela estava sendo socorrida e os pontos suturados. Alguém do corpo médico me informou que ela tinha sofrido hemorragia interna e que se não tivesse sido atendida a tempo, viria a óbito. Agradeci ao doutor e resolvi aproveitar para fixar na memória o que tinha  sentido, ouvido e visto; imagens dignas de um dos círculos do Inferno de Dante. Pois é, Maria José escapou da morte pelos desígnios de Deus. Fui apenas um instrumento da vontade divina. Graças a Ele, ela não passou a integrar o contingente de milhares de seres humanos que perdem a vida diuturnamente nos hospitais públicos do país. São três brasileiros que morrem a cada cinco minutos em hospitais públicos ou privados, atingindo à média absurda de 829 óbitos por dia, originários de falhas que poderiam ser evitadas, segundo o Anuário de Segurança Assistencial Hospitalar do Brasil. Diante desse quadro de mortalidade em massa, que poderia ser evitado, sinto um profundo mal estar associado ao sentimento de intensa compaixão por essas vítimas da imprudência, negligência ou imperícia, justamente daqueles cujo ofício é salvar vidas. Por outro lado, resta evidente que essa tragédia é também um caso de polícia. Contudo, por razões que a própria razão desconhece, a impunidade dos agentes públicos e privados envolvidos nas milhares de ocorrências fatais em hospitais é quase absoluta. Sabe-se que as instituições hospitalares não informam quantas mortes ou complicações acontecem por eventos adversos. E fica por isso mesmo, com raras exceções. Transparência zero. Lamentavelmente, não vejo perspectiva de solução para esse morticínio que já persiste há décadas. Somente uma Lava-Jato da saúde pública poderá acabar com a impunidade. E por falar nisso, o leitor conhece algum profissional da área de saúde condenado e prêso por homicídio no exercício da profissão?

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