Sobre aeroportos e bibliotecas

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 29/05/2018 09:00

Em um de seus romances,Valter Hugo Mãe sugeriu que aeroportos e bibliotecas fossem catalogados em um mesmo gênero: são lugares de partir e de chegar (cito de memória). Viagens de avião, assim como os livros, nos fazem abandonar paisagens familiares, até conhecidas, proporcionam deslocamentos, expectativas, podem fazer sonhar, dar lugar a reflexões diversas, e até, por alguns momentos, nos lembrar a própria fragilidade: de repente estamos entregues, e só até certo ponto confiantes, nós tão à mercê. Releiam Morte no avião, que Carlos Drummond de Andrade escreveu pouco antes de viajar para Buenos Aires, onde encontraria Maria Julieta e o neto Luiz Mauricio. Deixava o espaço tranquilizador do solo onde caminham os pés e se dava conta de que lá fora era o nada, as nuvens se fazendo e desfazendo, a terra distante, só por momentos vislumbrada pela janelinha do avião. Tinham razão o escritor português e nosso poeta maior: ler e viajar são ações afins, cada livro abre perspectiva para um novo mundo, mesmo aquele que não é obra de ficção. Ao longo da vida a gente armazena livros (a mancheias, Castro Alves?), arruma, classifica, separa, retoma, relê, e quando de repente, por uma razão ou outra, se vê obrigado a deslocar a biblioteca, céus, que trabalheira, tanto exemplar fora de lugar, onde colocar certos livros de ciência, qual o limite para história, sociologia, e logo filosofia, e ao lado de obras de arte vão se colocar álbuns sobre pintura, arquitetura, música, catálogos de museus, jardins. A literatura não dá menos trabalho: obras de ficção, romances, poesia, crônicas, relatos de viagens se confundem com biografias, entrevistas, coletâneas. E de vez em quando, gratas surpresas: eu esqueci que tinha esse livro, e para pra dar uma olhada, e se esquece do tempo, e faz uma pausa e mergulha no prazer de ler, como escreve bem esse danado, e que maravilha esse poema de Ferreira Gullar sobre a morte de Rainer Maria Rilke, e como essas Charlotte e Emily Bronte, vivendo em pequeno povoado tão pouco habitado, inserido em meio a charnecas quase desertas, conseguiram escrever obras primas sobre o coração humano, e a profundidade dos dilemas do amor? E a gente reencontra o quase esquecido maravilhoso poeta Francis Jammes, em Haspaaren lugarejo perdido no sul da França, sofrendo ao ver passar um pequeno animal levado ao matadouro, e escrevendo a Prece para ir ao paraíso com os burrinhos. Ah, Anna de Noailles, e Rosemonde Gérard, quanta beleza, seus romances, seus poemas, preciso mandar encadernar...E em meio a tudo isso, uma quantidade de livros que nos vieram de bibliotecas de amigos ou de parentes de amigos, doadas ( e não vendidas!) pela família, essas encadernadas com carinho, e que um dia representaram momentos de deleite, de viagens que agora nos chegam, como aquelas que pertenceram aos juristas Luiz Marinho e João Pinheiro Lins, cujas trajetórias de vidas a gente recompõe pela escolha e datas dos livros. Que nos inserem na ordem seleta de amantes de algumas das melhores e mais belas realizações que a humana gente produziu ao longo da História.

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