A morte do eterno mestre Alberto Dines

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 28/05/2018 09:00

O artigo sobre Cristhiano Aguiar já estava pronto. O grande escritor da nova geração brasileira, e não apenas pernambucana, está lançando um novo livro Na outra Margem, o leviatã, que consolida a sua iniciante carreira e confirma suas melhores qualidade: personagens cativantes, ambientação leve e sedutora, frases firmes e belas, que conquistam o leitor pela suavidade e pela simplicidade. Frases de narrador, não de autor. Diferença fundamental.

Mas a morte de Alberto Dines estabeleceu a urgência do tema neste espaço hoje. Quando comecei a minha carreira jornalística, sempre neste Diario de Pernambuco, Dines já era uma espécie de rei e o Jornal do Brasil a cartilha de todos os dias. Um aprendizado gratuito e persistente. Bastava lê-lo e o aprendizado vinha quase por osmose. Um lide era suficiente para admirar a sua notável qualidade.

Aprendi tudo com ele. Bastava abrir o jornal sobre a mesa e ali estava a aula. Desde o título da capa até o classificado mais remoto. Tudo era aula. Até porque Dines cuidava do jornal, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Síntese e qualidade,  distribuição do texto na página, visibilidade. Assim, fortalecendo de modo significativo a diagramação e o design, num tempo em que nem se falava nisso. Com um belo aproveitamento dos espaços em branco. Coisa nova e rara.

E uma recomendação definitiva: nenhuma matéria podia ter mais de 60 linhas. Matéria, portanto, contida e leve. O que significava: 20 linhas por página. Assim, 5 linhas para o lide – era o tempo do famigerado lide –, mais 5 para o sublide , um subtítulo com, no máximo, duas palavras, de modo a abrir o espaço branco para o leitor, facilitando a leitura. Entre um parágrafo e outro, o repouso do leitor, sem excesso de palavras ou manchas escuras na página.

Por isso, a lição final: uma boa frase se faz com sujeito, verbo e complementos. Nada de adjetivos, advérbios e enfeites. Esqueça apostos, intercaladas, firulas. Diga o que tem de dizer e pronto. O leitor não tem tempo a perder com exercícios mentais. De minha parte, lia o jornal pela manhã e relia-o por inteiro à noite, no plantão noturno. Nos fins de semana levava o JB para casa e copiava as matérias na máquina de datilografia, lendo, relendo, copiando. Lendo, relendo, copiando. Lendo e relendo em voz alta, como sempre recomendou Flaubert. Levei tudo isso para a literatura. Aqui estou, escrevendo, escrevendo, escrevendo... Nunca escreva astro rei, escreva sol; mãe é mãe, não é genitora; pai é pai, não é genitor. Escreva as palavras como elas são, não invente. E só escreva a palavra que conhece. Não esqueça o dicionário.

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