Caminhoneiros e a esquerda

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 26/05/2018 03:00

A greve dos caminhoneiros mais uma vez fez revelações importantes sobre a atual situação de nosso país. Primeiramente desnudou a fragilidade do governo federal, que não foi capaz de proteger a população de interesses corporativos de minorias que utilizam da força para subjugar e sugar recursos da maioria de nossa população. Os instrumentos dessas minorias opressoras são principalmente: (i) mobilizações e mentiras, como no caso da oposição à reforma da Previdência; (ii) apropriação de espaços públicos sem se submeter às regras socialmente estabelecidas para sua utilização, como no caso dessa greve de caminhoneiros e comum com o MST; ou (iii) a violência pura e simples diretamente, como no caso do tráfico de drogas e da tradicional bandidagem em geral. A maioria da população subjugada e humilhada por essas minorias fica aspirando governos com maior capacidade de protegê-la desses gatunos. O resultado é que terminam correndo para apoiar candidatos que populisticamente demonstram força, como Bolsonaro, mesmo que não tenham uma proposta de respeito democrático aos brasileiros, e mesmo que assegure o progresso do bem-estar. Ou seja, a greve atual é mais uma injeção de fermento na campanha de Bolsonaro.

Espanta a postura de alguns segmentos sociais que se dizem de esquerda, mas que sistematicamente têm apoiado bandeiras contrárias aos ideários mais essenciais da esquerda: (i) mais igualdade de renda; (ii) mais democracia e (iii) mais desenvolvimento das forças produtivas. Alguns chegaram a defender a greve atual dos caminhoneiros (ou assistentes políticos de Bolsonaro), que utilizam da força para tornar a população refém (menos democracia) e defendem interesses específicos de setores, impondo pela força mudanças de regras tributárias estabelecidas e acordadas sem “facas nos pescoços”, como a tributação do diesel, seja por Cide, PIS/Cofins ou ICMS (menos igualdade). Ainda jogam o lixo para o quintal do vizinho (aprovação da reoneração da folha). Essas são as mesmas pessoas que têm defendido a concentração de renda ao combater a reforma da Previdência e que defendem os privilégios da elite dos funcionários públicos. Quando apostam em propostas que distorcem preços relativos, como essa tributação distorcida pelo momento específico, também defendem menor desenvolvimento das forças produtivas. Aliás, algo que eles são mestres em fazer, como combater o Uber e a manutenção nos governos de estatais ineficientes. Ou seja, a direita no Brasil resolveu se fantasiar de esquerda e se encher de discurso radical. Agora, resolveram fomentar a campanha de Bolsonaro através de suporte à greve dos caminhoneiros. Ou seja, resolveram se “endireitarem” de vez.

Há outra revelação importante a partir dessa greve, além da confirmação de que o governo federal atual está muito fraco e incapaz de zelar pelos interesses básicos do povo brasileiro, e de que a nossa suposta esquerda na verdade é de direita e parece querer eleger Bolsonaro a qualquer custo. A terceira revelação é que estamos carentes de uma esquerda de verdade, que seja capaz de dizer três coisas: (i) criminoso, esteja ele de motorista de caminhão ou assaltante, tem que ser tratado como tal. As forças de repressão da sociedade têm que ser utilizadas contra eles de forma enérgica. A maioria da população que gostaria de ver alçados à hegemonia social os ideários da esquerda acima enumerados (mesmo que não se reconheçam como esquerdistas) não precisa recorrer à proteção da direita perversa, como está ocorrendo com o apoio de gente de bem ao candidato Bolsonaro. (ii) Vamos reduzir os privilégios irreais e a imensa transferência de renda dos mais pobres para a elite do setor público, pois somos a favor de mais justiça social e de melhor distribuição de renda. (iii) Vamos retirar das mãos dos políticos seus instrumentos de corrupção, como estatais que podem funcionar sem a tutela do governo, pois somos a favor do desenvolvimento das forças produtivas. Essa esquerda de verdade, contudo, infelizmente foi ofuscada por um esquerdismo corporativo que tem defendido as bandeiras da direita no Brasil.

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