Organizações sem paredes e sem muros

Sabrina Medeiros
Especialista em comunicação interna, mestranda em Indústrias Criativas da Unicap

Publicação: 24/05/2018 03:00

Em meio ao turbilhão de notícias sobre a decisão do STF em relação à prisão do ex-presidente Lula, que tomou conta dos noticiários e da internet, no mês passado, uma, em específico, chamou atenção. Trata-se da mensagem do comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, que veio a público um dia depois do comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villa Bôas, ter usado seu perfil do Twitter para expor opinião sobre impunidade.  A questão, no entanto, não é o teor destas mensagens, mas sim os diferentes objetivos que tiveram cada uma: a primeira foi voltada para o público externo na grande rede, já a segunda foi direcionada ao público interno, a fim de orientá-lo sobre o comportamento nas redes sociais.  No entanto, as duas acabaram repercutindo na mídia com a mesma velocidade e escala, e não é de se estranhar. Nos dias de hoje, numa sociedade hiperconectada, tudo que acontece no mundo off-line pode parar no on-line em poucos segundos.

Com os empregados de posse de smartphones e tablets pessoais, não há mais controle do que circula dentro do ambiente organizacional, como acontecia alguns anos atrás. Na nova lógica empresarial, impactada pela tecnologia, o empregado passa de apenas receptor de informações para também ser emissor, produtor de conteúdo, abandonando “sua pseudo-passividade para ser também sujeito da comunicação e das relações”, conforme descrevem os escritores Paulo Henrique Leal Soares e Rozália Del Gáudio. É o que podemos chamar de organizações sem paredes e sem muros, pois, com a internet, a informação passou a ser fluída e acelerada.

Isso cobra das organizações, cada vez mais, transparência e velocidade na hora de informar aos empregados o que está acontecendo na empresa e qual seu posicionamento em relação a assuntos polêmicos, evitando ruídos internos. Se não há mais controle, por que não pensar em como se posicionar melhor internamente para fazer com que isso repercuta positivamente lá fora? “O empregado sempre foi um cidadão do mundo, e, agora, mais do que nunca, permanecerá sendo, pertencendo a um ambiente muito mais amplo do que o de sua vivência corporativa, e as mídias digitais acentuaram essa característica de forma irreversível”, destacam os escritores Bruno Carramenha, Tatiana Cappellano e Viviane Mansi.

Então, pode-se aproveitar essa condição genuína do ser humano, que é se comunicar, para transformá-lo em um embaixador da sua marca. Empresas que já acordaram para essa realidade investem em fortes campanhas de endomarketing para estimular os próprios colaboradores a divulgarem o que está acontecendo lá dentro, demostrando o orgulho de pertencimento àquela organização. Às vezes, isso acontece, simplesmente, por ele se sentir prestigiado em receber uma informação estratégica antes que ela seja enviada à imprensa. Além de demonstrar respeito, é uma forma da empresa deixar claro sobre o que espera do empregado naquele momento. A exemplo do referido comunicado da Aeronáutica, que saiu no momento certo e ainda mostrou como a gestão está bem informada não só sobre o que acontece na política do País, mas também sobre a mudança de comportamento do seu público interno e o que isso pode causar à sua imagem.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.