Mulheres na Academia

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 15/05/2018 03:00

Neste domingo, em documentário da televisão francesa, a cerimônia de posse de mais uma acadêmica, na Academia de Letras francesa, uma filóloga (colega neste campo de conhecimento de nossa querida Nelly Carvalho). Bela cerimônia naquela instituição mais que venerável em seus trezentos anos, em sua casa à beira do Sena. E uma coincidência, a Academia Francesa possui, entre os quarenta membros, apenas nove mulheres. Como na Apl. Entretanto em algo a ultrapassamos: só em 1980 uma mulher foi aceita para a Academia francesa, a historiadora e romancista Marguerite Yourcenar, enquanto que entre nós, Edwiges de Sá Pereira fora recebida 57 anos antes de Rachel de Queiroz, para quem finalmente as portas da Abl se abriram a uma mulher, em 1977, após todos os percalços que conhecemos. E olhem que já no começo do século 20, duas escritoras foram aceitas como sócias correspondentes da APL, as poetisas Francisca Izidora e Joana Tiburtina Lins. Falei em percalços, a primeira tentativa de entrada de uma mulher na ABL foi marcada por longas discussões, de ordem jurídica e...semântica. Em 1936 Amélia Bevilacqua pretendeu a uma cadeira na Casa de Machado de Assis, e teve sua candidatura recusada. Segundo os estatutos, a instituição, só aceitava como membros efetivos, brasileiros que tivessem publicado em qualquer gênero literário, obras de mérito reconhecido. Diante da recusa, o jurista Clovis Bevilacqua, esposo de Amélia, se colocou contrário a interpretação que grande parte dos acadêmicos emprestava ao termo brasileiro: no masculino, a palavra poderia se referir a homens ou a mulheres. Àquela altura Amélia havia publicado obras de “mérito reconhecido”, romances, livros de crônicas, artigos na imprensa cearense e carioca. Fundara no Recife, com outras escritoras o excelente jornal O Lyrio, redigido exclusivamente por mulheres. E era membro da Academia Cearense de Letras. A ABL permaneceu irredutível e em 1950, pasmem, modificou o artigo dos Estatutos para “brasileiros do sexo masculino”, uma discriminação impensável em nossos dias. Impensável até certo ponto. Na mesma ocasião em que o documentário da televisão francesa apresentava a posse da nova acadêmica em Paris, vimos grande grupo de mulheres, atrizes, cineastas e outras profissionais do cinema protestando no Festival de Cannes, contra a desigualdade de salários existente entre homens e mulheres da profissão, e isso não apenas na França. E a gente repete a frase aprendida no colégio (em latim, sim senhora, nos bons tempos em que se entendia a necessidade da cultura latina como formadora de conhecimento de nossa própria flor do Lácio inculta e bela) a frase de Cícero, no senado romano, atacando seu adversário Catilina: Quousque tandem abutere... patientia nostra? (até quando enfim abusarás de nossa paciência?).

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