As cheias em Pernambuco (parte 2)

Luiz Ernesto Mellet
Gestor governamental da Secretaria de Planejamento de Pernambuco

Publicação: 08/05/2018 03:00

Em 1970 ocorreram duas enchentes em Pernambuco. Desta feita, a capital foi menos atingida, com as águas inundando 28 cidades da Zona da Mata e o Agreste do estado com o transbordamento dos rios Una, Ipojuca e Formoso. Mais de 1.200 casas vieram abaixo e 150 pessoas morreram. Contudo o Recife seria varrido pelas águas cinco anos depois, naquela que os jornais anunciaram como “a maior catástrofe natural da história”, quando 80 por cento da área da cidade ficou submersa.

Mal as águas tinham baixado e com a população ainda traumatizada retirando o barro das casas, espalhou-se na cidade o boato de que a barragem de Tapacurá tinha estourado. O pânico tomou conta dos moradores. Houve correria e desespero. As escolas fecharam as portas e os carros circulavam pela contramão. Os funcionários de um banco no centro saíram correndo deixando as portas abertas e, quando voltaram, estava tudo lá porque os ladrões haviam saído correndo também. O tumulto levou mais de uma hora, mas até hoje está acesa na memória de muita gente que passou por aquilo como se tivesse vivido o dia do juízo final.

Depois disso, os técnicos do governo viram que só a barragem de Tapacurá não bastava para afastar o fantasma das cheias. Foi aí que surgiu a ideia de se construir a barragem de Carpina – um grande reservatório com capacidade de armazenar 270 milhões de metros cúbicos, quase três vezes maior do que Tapacurá. Daí seguiu-se a construção de outras: a de Goitá, e a de Serro Azul, erguida para proteger a Mata Sul das enchentes.

Logo nos primeiros meses deste século, fortes chuvas voltaram a cair na Região Metropolitana do Recife e na Zona da Mata, deixando um total de 22 mortos, 100 feridos e 60 mil desabrigados. Mais de trinta municípios foram seriamente atingidos na cheia de julho do ano 2000, deixando um rastro de destruição. O estrago foi enorme: 16 municípios entraram em estado de emergência e de calamidade pública em outros 17.   

O governo achou que já passava da hora de dar um fim ao problema das cheias. Seria preciso formatar um conjunto de ações para minimizar os efeitos dessas calamidades. Quando as águas recuaram, o presidente Fernando Henrique Cardoso visitou Pernambuco e prometeu ajuda. Mas, no final das contas, Brasília só liberaria uma fração do necessário para a realização das intervenções preventivas.

Enquanto aguardava recursos, o governo do estado tratou de seguir em frente. Uma equipe da agência Condepe/Fidem foi acionada para trabalhar – em conjunto com professores da Universidade Federal de Pernambuco –, num estudo que apontasse as causas e soluções para as enchentes.  O material foi reunido num documento que consumiu meses de pesquisa. A Agenda da Reconstrução – como ficaria conhecido – elencou uma série de recomendações, desde o revestimento das encostas nas áreas de rios e cachoeiras até a construção de barragens. Mas pouco seria feito.

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