Brasil, 2º em morte de jornalistas

Múcio Aguiar
Presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP), conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e doutorando em Ph.d. pela Universidade de Coimbra.

Publicação: 05/05/2018 03:00

Tema atual, porém secular, a liberdade de imprensa sempre rondou nossa imprensa, fato memorável foi a decisão da Associação Brasileira de Imprensa, em 1912, de eliminar de seu quadro social, o general Dantas Barreto, então governador de Pernambuco, tido como responsável pelo empastelamento sofrido, na sua administração, pelo Diario de Pernambuco e pelos atentados a diversos jornalistas pernambucanos, deles dizendo Mário Melo, em crônica, que “amanhecer vivo, diariamente, era incompreensível” tantos foram os periódicos ameaçados, as surras em jornalistas, com assassinatos até por engano, como o de Trajano Chacon. Sobre a profissão, o ex-presidente da AIP, Sócrates Times de Carvalho diz ser o “exercício do jornalismo indício de uma acentuada tendência para o suicídio”, lembrando que muitos jornalistas “foram obrigados a engolir jornal”.

Em crônica no Diario de Pernambuco, em 1926, Gilberto Freyre, alude à uma “tradição do desaforo”, como característica dessa época, na qual muitos jornalistas sofreram atentados à sua vida, quando não assassinados pela polícia e por capangas, tudo a mando de poderosos.

106 anos da decisão da ABI, a ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou no último mês de abril que o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de assassinatos a jornalistas, na América Latina. Durante o período de 2010 e 2017, 26 repórteres foram mortos no país por motivos relacionados ao exercício da profissão. O índice coloca o Brasil atrás apenas do México, com 52 mortes de profissionais de imprensa no período. A estatística considera apenas casos em que é possível ligar diretamente o crime com a prática do jornalismo. Além dos crimes de morte o RSF mostrou preocupação com os números de casos de ameaça e intimidação contra os profissionais. De acordo com a entidade, foram cerca de 99 casos no Brasil no ano passado. No início de abril de 2018, a sede de um jornal no litoral do Paraná foi alvejada por tiros. A violência contra repórteres colocou o Brasil na 102º posição entre os 180 países na estatística mundial que avalia a liberdade de imprensa. Em 2016 éramos o 103º colocado.

Ainda em abril, a Sociedade Interamericana de Imprensa registrou a morte, no exercício da profissão, do radialista Jefferson Pureza Lopes, da rádio Beira Rio em Goiás e Ueliton Bayer Brizon, em Rondônia. Segundo a SIP, aumentaram também os casos de repressões, ameaças e agressões físicas. A SIP alerta ainda que os donos de jornais e de outros meios de comunicação também são vítimas de intimidações e acusações, o que reforça a proposta de federalização do crime contra comunicadores.

Em tempo, o repórter Zuenir Ventura que há cinco décadas escreve os principais acontecimentos do Brasil estará relançando pela Objetiva o clássico 1968 – O Ano que Não Terminou. Será homenageado em junho no Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

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