Crítica aos desvarios do sexo vira pornografia

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 30/04/2018 09:00

Noticia-se, com frequencia, a atuação de pedófilos nas mídias sociais; algo assustador e inquietante, uma praga que se multiplica e irrita; a polícia prende todos eles, mas outros voltam a atuar, cada vez com maior escândalo. Aliás, uma palavra adequada para a pedofilia: escândalo; causa-me nojo e tristeza, além de irritação e raiva. Ódio, um ódio que vai crescendo com novas notícias.

Diante disso, lembro-me do romance Lolita, de Vladimir Nabokov, que faz uma áspera e corrosiva crítica à sociedade norte-americana, mas que foi confundido como uma indecente, imoral, literatura barata. Foi classificado de "imoralidade pura" e rejeitado por cinco editoras nos Estados Unidos e queimado por conservadores. Mas, afinal que livro é esse que provoca tanto ódio?

Lolita não encontrou editores nos Estados Unidos e foi lançado na França em 1955 pela Olympia Press, chamada de editora obscura. Tempos depois circulou entre os americanos quando já estava com a carreira consolidada. Continuava a ser considerada, porém, uma obra indecente, imoral. Atraía multidões mas todos estavam equivocados.

O  romance investiga a vida do personagens  e dos seus desejos mais sombrios, mais abjetos. Vai fundo na alma ou no inconsciente destes mesmos personagens através das cenas e dos cenários, interpretando com volência e força o que vê e o que observa. Assim: o olhar crítico de escritor oriental - Nabocov  era russo - examina os desvarios sexuais do ocidente, sobretudo aquilo que ele chamava de licenciosidade sexual. Por isso, conta a história de uma violenta relação amorosa entre um homem de 50 aos, Humbert Humbert e uma menina de 12 anos, Dorothy.

Em certo sentido a história é indecorosa e cruel, se vista apenas como uma historia qualquer, mas há aí, principalmente, o arrebentar de forças interiores que explodem nas veias de cada um de nós, mesmo quando visto como um caso psiquiátrico. Os palavrões não contam mas a agonia de nossa época, tomada de desespero e de dor. Essencialmente é isso que conta o livro, e, mais ainda, do nosso tempo degenerado, sem defesa, sem suporte, sem moral; em tudo nós somos arrebatados, arrebentados, castigados. Eis assim a aventura de viver.

Na introdução à edição brasileira da Alfaguara, o escritor Martin Amis, através do personagem John Ray, Jr. phD, Adverte: Neste pungente estudo pessoal oculta-se uma lição para todos, a criança obstinada, a mãe egoísta, o maníaco ofegante - não são apenas personagens vivamente decritos numa história singulsr; eles nos advertem para tendências perigosas;elas nos apontam para males perigosos.

Lolita devia fazer com que todos nós - pais, assistentes sociais, educadores - nos dedicássemos com vigilância e consciência ainda maiores à tarefa de criar uma geração melhor num mundo mais seguro.

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