Desvalorização cambial: bom para o Brasil

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 28/04/2018 03:00

Houve nos últimos três meses uma depreciação real da taxa de câmbio brasileira (temos que pagar mais Reais pela mesma quantidade de dólares). Quando se compara à média efetiva real do ano anterior (deflacionada pelo IPCA) ela atingiu 5,2% (dados do Banco Central). Desde o primeiro semestre de 2011 essa depreciação atingiu 38%. Diante de tal tendência, surge o debate sobre as consequências de tal fenômeno para a retomada da economia brasileira. Alguns dizem que o impacto é negativo, retardando-a ainda mais, pois eleva o preço dos bens de capital importados, que são importantes nos investimentos das empresas brasileiras. Enquanto outros acreditam que ela contribui positivamente para o desempenho de nossa economia pois aumenta a competitividade de nossa produção interna em relação a de outros países, o que elevará as exportações e reduzirá as importações.

Em uma economia em que há capacidade ociosa, como é o caso da brasileira atualmente, qualquer análise teórica razoável conclui que a depreciação cambial acelera a retomada econômica, através de sua contribuição para a demanda agregada. Os maiores custos dos bens de capital importados são compensados pela melhor perspectiva de crescimento futuro e normalmente pela menor taxa de juros envolvida nas suas aquisições, como é o caso atual do país, que tem se beneficiado de reduções nessas taxas desde o ano passado. Ou seja, o caminho da taxa de câmbio seguido atualmente é positivo para o crescimento do país. Dados históricos mostram que ela pode ainda depreciar bastante, atingindo patamares próximos a R$ 4,00 e mesmo assim o seu impacto seria ainda positivo.

Obviamente a depreciação cambial atinge negativamente alguns setores, que são aqueles com participação elevada de importações entre seus insumos. Ela provoca uma mudança de preços relativos na economia que é perversa para esses segmentos. Os bens de consumo de luxo geralmente contam com maior percentual de importação em sua composição de custos. Por isso são mais prejudicados com elevações de preços relativos causadas pela depreciação cambial. Além disso, ela encarece as viagens internacionais, pois os brasileiros que visitam o exterior têm que pagar mais pelos mesmos bens e serviços adquiridos fora do país. Ou seja, as classes alta e média alta são as mais prejudicadas em seu consumo. Daí se justificar surgir essa ideia condenando a depreciação cambial como sendo prejudicial ao país. Entretanto, não há estudo acadêmico sério que mostre que em momento de tanta ociosidade na economia ela possa gerar impacto negativo para o crescimento econômico.

Ou seja, os que defendem a perversidade da depreciação cambial estão na verdade olhando apenas para os seus interesses imediatos, sem observar o bem para todo o país. A crise está ainda muito forte no Brasil. Daí a depreciação ser muito bem-vinda no momento. O importante é o governo federal e o Bacen não se impressionarem com as críticas e não introduzir mudanças tributárias e na condução da política monetária que possam reduzir ou mesmo reverter essa tendência. Quando a economia retomar, aí o importante passa a ser implementar mudanças que assegurem a manutenção da taxa de câmbio em níveis que garantam a competitividade do setor produtivo nacional, dificultando a apreciação cambial, como tradicionalmente ocorre nos ciclos de expansão da economia brasileira. Por enquanto, o importante é deixar depreciar, desde que se olhando o comportamento da inflação, que é realmente afetada perversamente pela taxa de câmbio. Mas esse não é um problema no Brasil no momento.

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