Cadeiras de rodas

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 27/04/2018 03:00

O brasileiro, nos dias que correm, pensa quase que só em si mesmo. Estaciona o carro onde lhe der na veneta. Fura fila de elevadores. Joga, sem constrangimento, lixo nas ruas. Emporcalhando a cidade. E essa praga se alastra para as corporações. As greves se banalizam. Ruas e estradas são fechadas, a troco de nada. Por qualquer razão. Quem tiver o que fazer, ou se precisar ir até um hospital, que se dane. Não estão preocupadas (talvez nunca tenham estado) com o que é bom para o país. Para os indeterminados cidadãos comuns do povo. Querem só o melhor para elas. Para seus membros. Mesmo nas questões mais simples, se vê por toda a parte o brilho deletério do individualismo se sobrepondo ao interesse coletivo. Sem contar uma lassidão que, cada vez mais, se alastra e nos contamina. Nos paralisa. E nos faz reclamar de tudo. Sobretudo do governo. Até por não ter feito o que nós mesmos poderíamos fazer.

Nesse ponto entra, em nossa história, Geraldo Freire. Quem quiser saber melhor quem é, e de sua vida improvável, pode ler a biografia que escreveu (O que eu disse e o que me disseram). Então saberá como sobreviveu, nascido no meio do nada. E escapou da fome, em Mimoso. E se criou sozinho. Para ser, com seu suor, o maior radialista de Pernambuco. Geraldo se sensibilizou com o drama de pessoas humildes que precisavam de cadeiras de rodas. Gente para quem essas cadeiras eram um luxo incompatível com os limitados recursos que tinham, em casa, e que mal davam para comer. Segundo ele, o Estado deveria pelo menos garantir isso aos desvalidos. E reclamava, e reclamava, e nada. Até que cansou. Ainda bem. Foi o começo de tudo.

Então, ele próprio decidiu fazer campanha para doar essas cadeiras de rodas. Isso já faz quase 40 anos. Sem interesses, especialmente eleitorais, que não o de atender a uma enorme legião de carentes. Juntou amigos. No início, poucos. Teve o importante apoio de sua Rádio. O que não se podia prever era que os ouvintes abraçassem essa ideia com tanta paixão. Virou uma febre. Hoje são doadas, em média, mil cadeiras por ano! Quem pode, contribui com mais. O amigo João Carlos Paes Mendonça, e isso era segredo até agora, doa dez por mês (penso que ele não vai gostar da inconfidência). Pessoas simples, para quem esses recursos fazem falta, com menos. Há quem espere o 13º salário, no fim do ano, para doar uma.

Momento mais tocante, para mim, é o da entrega das cadeiras. Como se trata de rádio, não dá para ver imagens. Mas podemos imaginar, pela emoção que esborra das palavras, o rosto feliz das pessoas que as recebem. Prova de que uma coisa tão simples, como uma cadeira, pode mudar vidas. A chance de ver o sol. De ir até a calçada. De conversar com os vizinhos. Se esses réus da Lava-Jato presenciassem a cena, iriam morrer de vergonha. Que a grana que surrupiaram, em favor dos partidos ou de seus alentados bolsos, seria mais que suficiente para resolver de vez esse problema. E tantos outros.

O mito de Bon Sauvage, de Russeau, se evaporou. Do brasileiro como um “homem cordial”, na definição de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), vai ficando só um retrato na parede. E “como dói”, diria Drummond (em Confidência do Itabirano). Mas nem tudo está perdido. Essas doações de cadeiras de rodas funcionam como um renovar de esperanças. Porque já deixou, há muito, de ser só uma doação de cadeiras de rodas. É mais. É o rosto concreto da solidariedade. É a prova de que há boas razões para não desistir do país. É a esperança de que o brasileiro, no fundo, ainda pode ser um homem bom. É um gesto. Num símbolo. Num sonho.

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