EDITORIAL » O protesto das juízas

Publicação: 16/04/2018 09:00

Vem em boa hora a discussão sobre as questões de gênero no Brasil. Trazer ao debate discriminações veladas joga luz sobre comportamento tão arraigado no país que passa despercebido da maioria da população. Tratar desigualmente os representantes do sexo feminino e do masculino ganha a naturalidade do suceder dos dias e das noites, das estações do ano ou das fases da Lua.

A observação vem a propósito da desfiliação de juízas da Associação de Magistrados Brasileiros (AMB). O estopim do protesto foi a falta de representatividade no XXIII Congresso Brasileiro de Magistrados. No material divulgado pela entidade, dos 28 palestrantes confirmados, 26 eram homens. Dos 36 oradores previstos, só figuravam duas mulheres.

Cabe, a propósito, ampliar o leque da discussão. Vai longe o tempo em que o Padre Antônio Vieira afirmou que a mulher deve sair de casa em três ocasiões — no batizado, no casamento e na morte. Nos demais dias, meses e anos, tinha de manter-se ao abrigo do lar, cuidando da família e dos afazeres domésticos.

Os ventos mudaram. Hoje mulheres frequentam a universidade, sobressaem na pesquisa, engrossam as fileiras das Forças Armadas. Mas encontram barreira invisível, porém poderosa no momento de ascender a cargos decisórios. Não por acaso mereceu manchete o fato de a presidente do Supremo Tribunal Federal e a procuradora-geral da República serem mulher. Em vez da competência, chamou a atenção o sexo das profissionais.

A sub-representação se observa tanto no setor público quanto no privado. Embora a população feminina seja superior à masculina, embora universitárias sejam maioria nas instituições de ensino superior, embora se destaquem nos concursos públicos, as mulheres ficam em segundo plano na escolha dos cargos de direção. A Esplanada tem mais ministros que ministras. Quem preside a Câmara é deputado. Quem preside o Senado é senador. Quem preside a maior parte das empresas veste paletó e gravata.

Iniciativas como a das juízas são exemplo de luta contra o ultrapassado. Os resquícios do paradigma defendido pelo Padre Vieira não encontra ressonância num país urbano, democrático e aberto para o mundo. Passou da hora de fazer a leitura correta do tempo e entrar no século 21. Não significa garantir assento nos cargos de direção para mulheres pelo fato de serem mulheres. A questão vai além do gênero. Elas conquistaram o direito de chegar ao andar de cima por mérito. Não por deferência.

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