A despedida de Lula para os pernambucanos

Urariano Mota
Escritor

Publicação: 13/04/2018 09:00

Há quase oito anos, escrevi sobre a despedida de Lula em Pernambuco:

Na última terça-feira, o Recife viveu momentos raros de encantamento. No marco zero da cidade, uma emocionada multidão parou enfeitiçada como se fosse uma só pessoa. Ali, o presidente Lula, de camisa azul e sem cerimônia, despediu-se da Presidência para os pernambucanos.

Daquele encontro, o Diario de Pernambuco publicou que no último discurso, antes de deixar a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva chorou por três vezes e soluçou numa delas. “ ‘Se eu falhasse, quem falharia era a classe trabalhadora, os pobres que iriam provar que não teriam competência para governar’, disse Lula em festa promovida no Centro do Recife, enquanto enxugava as lágrimas e justificava a cobrança que se impôs após vencer a eleição de 2002. O momento de maior emoção de Lula deu ao lembrar-se do seguinte episódio narrado por ele: ‘Eu lembro que um dia, aqui, uma mulher falou que não ia votar em mim porque eu ia tirar tudo dela. O que eu ia tirar dessa mulher? Eu falei: Marisa, estou assustado, que eu fui num barraco e uma pessoa que não tinha nada, tinha medo de mim. Marisa (a primeira-dama) me dizia: ‘Não desiste que um dia você vai convencer’ e isso aconteceu em 2002’.

Em seguida, ouviu-se pelo microfone Lula contendo o choro. Na plateia, dezenas de ouvintes o copiavam. A fala de Lula durou 33 minutos. Cerca de oitenta mil pessoas estavam no Marco Zero”.  

Naquela noite de 28 de dezembro de 2010 houve emoção e verdade no reencontro de um presidente com a gente que o ama. E carinho e coragem e pulsar de afetos são coisas que mexem nos nervos até das pedras.  

Mas em toda imprensa se perdeu uma dimensão essencial para quem relata uma ação política: em vez de olhar o grande homem, que está no poder em um foco único e exclusivo, maior significação teria se os olhos do repórter estivessem no público, nas pessoas fora do palco. Melhor seria que o repórter se fizesse um dos que estão do lado de cá, se a reportagem pudesse ver os que se encontravam longe do céu do palanque.

Naquela última terça-feira de 2010, se os repórteres não olhassem a multidão à distância, teriam visto cadeirantes pedindo passagem, senhoras velhinhas apoiadas nos netos, indivíduos cegos a tatear com suas bengalas, jovens, muitos jovens, negros, muitos negros, negros na pele e no peito, que ouviam sérios, com absoluta atenção o presidente que lhes dizia, apontando para um menino da favela que toca violino: “Ele, Daniel, só queria uma oportunidade”. Teriam visto as pessoas se retirando do encontro, depois que Lula acabara a sua fala, a ponto do locutor lhes pedir que ficassem, porque teriam ainda um show de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Inútil, porque ainda assim as pessoas se retiravam, porque o ápice do drama, naquela noite, já havia sido atingido: o presidente lhes falara que do seu destino um homem não desiste. Que nada pode ou não deve estar definido antes em razão de renda, lugar, sexo ou raça.

Agora, em 2018, arrancado da disputa eleitoral por artimanhas da ministra Cármen Lúcia e pela última flor do fascio inculta e bela, que todos chamam de Sérgio Moro, Lula atualiza as palavras no Recife. No momento em que amarga uma injusta prisão, ao se despedir do povo ele falou entre outras palavras:

“Eu sou um construtor de sonhos. Sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma, cuidar mais da educação do que os diplomados e concursados cuidaram da educação. Sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades do país. Daqui a pouco vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela, nascidos na periferia. Se esse foi o crime que eu cometi, eu vou continuar sendo criminoso”.

No Recife, há 8 anos, homens e mulheres choravam uma saudade antecipada. Hoje, multidões de brasileiros sentem uma perda semelhante. Mas o mundo é maior que este instante. Logo, logo, Lula, Lulas lutarão livres. O sonho de uma pátria justa vai além deste fim. 

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