Entre seres vivos e minerais: um belo livro

Luzilá Gonçalves Ferreira
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Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 09/04/2018 09:00

“Existe uma bela e misteriosa intersecção entre seres vivos e os minerais. Ela começa no livro do Gênesis onde o sopro da vida atinge um boneco de barro. Essa aventura está longe de terminar. (...) Os chips de nossos telefones celulares e ligas metálicas de espaçonaves nem de longe compreendem o ultimo capitulo dessa aventura.” Assim começa o livro que Luis Siqueira intitulou Geologia Humana, um estranho encontro de palavras que pode intrigar o leitor comum, mesmo aquele conhecedor do poema de João Cabral, que nos ensinou a educação pela pedra. Nada a ver, ou antes, tudo a ver. O autor desse sensível, inteligente, bem escrito e erudito estudo (como conseguiu dizer tanto. de modo tão contundente em pouco mais de 70 páginas e de linguagem accessivel? ) é geólogo pela Ufpe, Mestre em Geociências, especialista em Recursos Minerais. Nascido em Garanhuns (claro!) morou muito tempo no sertão, foi agricultor, garimpeiro de pedras preciosas, comerciante, jornalista, professor, editor, coordenador regional de programa de combate à pobreza rural com recursos do Banco Mundial. E mais: romancista, poeta, autor de livros premiados como A urgência de animar o coração, Breviário de Heresias Sertanejas, Todas as janelas do mundo. Este, recém publicado livro de não ficção, a gente lê de um trago. Leitura urgente para todo pernambucano, nordestino, brasileiro. Simples cidadão ou politico com um pouco de responsabilidade, social, humana. Luis critica nossas mazelas ( e Deus sabe quanto são numerosas) mas, com a modéstia de quem sabe das coisas, nos dá sugestões algumas simples – como por exemplo, em construir moradias adaptadas ao meio, baratas e de modo a empregar a mão de obra local, diferentes de conjuntos habitacionais que a gente vê. Pernambuco afora, aglomerados de caixinhas de fósforo, sem imaginação, depósitos de famílias pobres nas margens de nossas rodovias, “cortiços verticais que atentam contra a individualidade.” Afirma: até casas de taipa podem ter dois pavimentos se devidamente revestidas com reboco de argila, pintadas com cal virgem, pinceladas com uma água de sabão comum, formando uma reação de estereato de calcio impermeabilizante, dando longevidade à obra. Lembra: no Recife e Olinda igrejas seculares foram construídas com blocos de arenito repletos de conchas marinhas. Erguemos arranha-céus movidos a sensores eletrônicos que movimentam portas, janelas e eletrodomesticos, mas ainda convivemos com palafitas e taperas. Conhecedor da vida em pequenos povoados do interior – ou em favelas citadinas – Luis aborda questões como o lixo e lixões urbanos, a exploração sem controle de nossas reservas hídricas, o problema das lavras na busca desenfreada por minerais e o que deixam quando se esgotou o veio, esquecendo-se “um projeto harmônico reunindo recursos naturais, homem e espaços”. Cita exemplo modelo:  a cidade projetada por Joaquim Guedes (FAU-USP),  Caraiba, hoje Pilar, referência na arquitetura brasileira, erguida no meio da catinga para servir de apoio a uma mina de cobre, que ainda hoje funciona, com ruas largas, ventiladas, casinhas não alinhadas, para criar jardins, escolas e praças. Há muito mais no livro de Luis, inclusive sugestões para eco-turismo. Agora um comercial: pode ser adquirido em boas livrarias mas também pelo Amazon, via internet. A se ler e reler.

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