Caos social

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 07/04/2018 03:00

O Brasil vive momento de caos social. Condenação e prisão de Lula. Indefinições políticas por todos os lados sobre os partidos e candidaturas. Henrique Meirelles sai do Ministério da Fazenda e não consegue manter o seu controle com colocação de seus aliados em posições chaves. Isso tudo ocorre em momento que o presidente Temer comanda uma mudança na política econômica, aumentando a agressividade expansionista. Nas redes sociais as divergências e radicalizações são também mais uma evidência da crise por que passa a sociedade brasileira. Pernambuco, por sua vez, acrescenta seu tempero próprio a esse caos, a partir das incertezas políticas em relação aos destinos do MDB. Candidaturas a governador e a senador ainda continuam em aberto, também. Essas incertezas e insegurança geradas pelas divergências sociais repercutem negativamente na economia.

A maioria da população brasileira é contra a corrupção. Várias pesquisas mostram isso. A própria eleição de Lula em 2002 teve essa motivação como principal determinante. Apesar de nossos habitantes serem pobres em sua maioria, a melhor distribuição de renda e a prioridade à promoção do crescimento econômico, que são as prioridades ideológicas da esquerda, não conseguem ganhar hegemonia na sociedade. A classe média consegue se associar mais facilmente com a maioria da população pobre e impõe a hegemonia de sua agenda corporativa, que concentra renda e reduz o desenvolvimento econômico, contrária às bandeiras genuinamente de esquerda. Estratégias para reduzir o déficit público, a partir de propostas como redução de funcionários públicos, reforma da Previdência e tickets para estudantes escolherem as escolas que estudam, tocam diretamente os interesses corporativos da classe média e não conseguem obter suporte das classes menos favorecidas.

A esquerda, liderada pelo PT, incluindo propostas distributivistas e desenvolvimentistas em sua plataforma política, empunhou a bandeira anticorrupção em 2002. Com ela, conseguiu mobilizar segmentos de classe média mais progressistas em torno da candidatura de Lula, o que permitiu a sua vitória. Em 2006, o PT perdeu essa bandeira anti-corrupção por causa do escândalo do mensalão, mas o bom desempenho econômico e a promoção efetiva de melhoria na distribuição de renda, com poucos ônus para os demais segmentos sociais, permitiu que ainda assim fosse possível manter o poder. Vários segmentos sociais das elites empresariais perceberam que uma gestão PT não era agressiva e que poderia ser condutora do país sem gerar nenhum caos. Essa lua de mel permaneceu até o fim do primeiro mandato da presidente Dilma, inclusive permitindo a sua reeleição. Contudo, o ímpeto distributivista das políticas perdeu fôlego e o desenvolvimentismo irresponsável precipitou o país em uma forte crise. Paralelo a isso, tornaram-se mais claras as ligações do PT com a corrupção. Voltou a ênfase nas prioridades corporativas, que são claramente pró-concentração de renda. Significa que a esquerda no Brasil está acéfala. Não tem mais liderança.

A defesa de não prisão de Lula nesse momento significa permitir que Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e tantos outros, inclusive os que ainda estão no governo e deverão enfrentar a Justiça depois, também se safem com os mesmos artifícios. Por mais triste que a prisão de um ex-presidente seja, e principalmente com a importância que Lula teve, ainda assim ela é um passo necessário para combater a corrupção. Dilma e a CUT já sepultaram a preocupação com a distribuição de renda e o crescimento. Agora, esse movimento contra a aceleração da justiça acaba de transformar nossas supostas lideranças de esquerda nos maiores defensores do atraso e do antiesquerda. Quem vai nos liderar para fora desse caos social?

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