Ela é porque nós somos!

Márcia Alcoforado de Moraes
Professora Associada - Departamento de Economia/PIMES/ PPGEC. Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.

Publicação: 04/04/2018 03:00

Passaram-se já algumas semanas do brutal assassinato de Marielle Franco. Propositalmente deixei passar um certo tempo, refreando-me do impulso natural de sentar e escrever, sempre que algo me afeta. Confesso que desta vez o impacto foi grande, por isso talvez tenha me dado um tempo maior. Não conhecia Marielle. Nunca tinha lhe visto a belíssima fisionomia, nem a altivez e dignidade com que se denominava negra, da favela e lésbica. Soube que era uma especialista em fugir de estatísticas cruéis, pois mesmo nascida e criada na favela da Maré e tendo engravidado ainda adolescente, formou-se em Sociologia pela PUC-RJ e obteve mestrado em Administração Pública na UFF. Eleita em 2016 para uma vaga na Câmara, a vereadora coordenava a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando foi executada com quatro tiros na cabeça, o que a transfigurou, talvez numa tentativa inócua de desumanizá-la. Em meio a um turbilhão de notícias com detalhes horrendos sobre o assassinato e a uma tímida resposta das autoridades de plantão, não sabíamos, mas uma outra rajada de fuzil ainda estava por vir: uma onda de mentiras e difamações compartilhada avidamente em redes sociais. Como num passe de mágica, o julgamento já tinha sido realizado e da mesma forma que uma estuprada, de sainha curta à noite, passa muito rapidamente de vítima a acusada, a vereadora brutalmente assassinada passou a ter responsabilidade sobre a própria execução.

Há muitos séculos não se queimam mais bruxas em praça pública. O poder feminino conquistou espaços enormes nos nossos dias. Porém, ainda gera insegurança e cercado de incompreensão resulta em violência, especialmente em sociedades extremamente desiguais e patriarcais como a nossa. Segundo dados da OMS, citados pela própria Marielle, dentre 83 paises o Brasil é o 7º. mais violento com as suas mulheres. São 12 assassinadas todo dia. Na sua luta legítima pelas mulheres negras da favela, extremamente afetadas pela violência urbana, Marielle colocou o seu poder e levou a sua extrema feminilidade à questão da segurança pública. Não foi perdoada e a ela não se deu nenhuma chance de defesa. No seu último discurso na Câmara do Rio perguntava: “Onde estão as vagas da creche que foram apresentadas pelo prefeito? Onde estão as educadoras e os educadores que não foram chamados ainda nos concursos para as escolas? Como será feita a revista em crianças nas favelas agora sob a Intervenção?” Lutava, segundo ela mesma, “por uma outra forma de fazer política” dentro da democracia.

Uma sociedade que precisa classificar, enquadrar comportamentos e posições em preto e branco, direita e esquerda, a favor ou contra, não enxerga ou insiste em não enxergar os diversos tons e nuances da ampla gama de cores que a perspectiva feminina pode oferecer, e não consegue admitir como sua representante legal esse feixe de luz que era a Marielle. É essa mesma sociedade que instituiu o modus operandi e tem delegado aos seus representantes a nossa política de segurança pública. O fracasso dessa política e da maioria daquelas voltadas ao enfrentamento dos nossos graves problemas sociais (saúde e educação) afetam com muita intensidade a vida das mulheres, em especial as negras e faveladas, que Marielle representava: “As rosas da resistência nascem do asfalto...... A gente recebe rosa, mas a gente vai estar com os punhos cerrados, falando do nosso lugar, falando de vida e resistência contra os mandos e desmandos que afetam as nossas vidas”

Mais do que uma representante dos direitos dessas mulheres mais vulneráveis, Marielle era o feminino na política. Denunciava abusos de policiais, ao mesmo tempo que defendia as suas viúvas. Amparava mães de chacinados e de policiais assassinados. Protegia as mulheres negras policiais diante de sua própria corporação. Sabia que tudo estava conectado e integrado, afinal não há separação nessa guerra entre irmãos. Marielle vive na morte, e nunca deixará de estar presente, pois ela é o feminino, o paradoxal, a colaboração e a integração de opostos. A sua força invisível, complexa e multifacetada está em todas as mulheres. Ela é porque nós somos!

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