EDITORIAL » O poder das manifestações

Publicação: 04/04/2018 03:00

Mais uma vez o povo foi convocado para ir às ruas. O fato merece aplausos. É bem-vindo no momento em que se tornou lugar-comum afirmar que os movimentos sociais se encontram enfraquecidos, que as pessoas estão acomodadas, que as instituições se sentem livres para atuar com a desenvoltura de quem não teme o controle social ou a cobrança popular.

O movimento não deve mobilizar as multidões que ocuparam as principais cidades há cinco anos. Em junho de 2013, mais de um milhão de brasileiros saíram de casa para expor a indignação diante do quadro de deterioração política e econômica que se observava no país. Foi um momento histórico. Sem líderes e sem donos, as ondas humanas pareciam fruto de geração espontânea.

No começo, não tinham bandeira clara. Só depois as vontades se aglutinaram. A manifestação de hoje, ao contrário, tem um alvo definido — Luiz Inácio Lula da Silva. De um lado, estão os defensores da execução da pena depois do julgamento em segunda instância. É o caso de Lula.

Alegam que, só assim, a impunidade deixará de ser estímulo a feiticeiros ou aprendizes de feiticeiros. Certos de que se encontram fora do alcance da Justiça, eles continuam a carreira criminosa ou nela se aventuram sem freios. De outro lado, encontram-se os partidários do ex-presidente, cuja tese se apoia na exigência do trânsito em julgado.

A escolha do dia não se deve ao acaso. Hoje o Supremo Tribunal Federal deve bater o martelo sobre o habeas corpus preventivo que pode ou não livrar da prisão imediata Luiz Inácio Lula da Silva. A propósito das consequências da decisão histórica, a presidente da corte, Cármen Lúcia, gravou pronunciamento no qual pede serenidade e respeito às opiniões diferentes.

É esse o espírito — de serenidade e respeito — que deve mover os cidadãos que vão exercer o direito de manifestação, garantido pela Carta Magna. A mobilização, dentro da lei e da ordem, é sinal de força do regime democrático. À polícia cabe assegurar a segurança. Se necessário, isolar os opostos para prevenir confrontos que, sabe-se, estão longe de registrar final feliz.

A ocupação civilizada do espaço público constitui recado claro de que o brasileiro não está dormindo. Ao contrário. Está acordado para as decisões que lhe afetam a vida. Deixa para trás o tempo em que considerava o Estado o grande pai, a quem entregava o próprio destino e o futuro das gerações que esperam — e merecem — um país melhor. Faz valer a norma constitucional de que “todo poder emana do povo”.

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