Título de cidadania aprovado, esperado

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras. Colaboradora do Jornal de Letras do Rio de Janeiro.

Publicação: 03/04/2018 03:00

Para cumprir pontualmente a agenda, o carro guiado por mãos ágeis ganhou rapidez pelos caminhos tantas vezes percorridos à cidade onde vivi uma bela fase da minha vida, desde quando meus pais se transferiram do Engenho São Francisco, em Ipojuca, levando-me com três meses de nascida aos engenhos da família, na zona canavieira, ao derredor da cidade de Bom Jardim, que me acolhe e atiça a memória para as coisas boas que aconteceram.

Em dualismo chaga-me a menina ruiva, aspirante de alegrias, andando pelas ruas e ladeiras tortas, de casas de parentes e de colegas do nosso Colégio Santana. Bom Jardim, ditou-me as cores em linguagem pictórica, e o outro caminho da escrita de onde resgato tipos humanos entre outras coisas inesquecíveis. O prolongado apito de chegada do trem sugestionava toda a cidade a um passeio à Estação da Great Western. Tempos depois a cidade não era mais a mesma sem o trem. Arrancaram o coração das pessoas desativando as linhas férreas. Resgato a poesia de Adélia Prado, da minha admiração: “O trem atravessa a noite, a madrugada, o dia. Atravessou minha vida, virou só sentimento.”

Em Bom Jardim estive em 1990, como palestrante da solenidade comemorativa dos 118 anos de emancipação política da cidade, convite recebido do prefeito Sebastião Rufino. Neste dia receberia o título de Cidadã bonjardinense, por sugestão do vereador Gustavo Santana, autor do projeto de resolução, publicado em 16 de fevereiro daquele ano, aprovado pelos membros da Casa Desembargador Dirceu Borges. Quando menina conheci o doutor Dirceu Borges, vinha a Bom Jardim nas férias de final de ano com a família, todos tocavam um instrumento musical. Primo da minha avó Júlia de Castro Barbosa, a mãe Júlia de todos nós, seus netos. Minha bisavó, Maria Landelina Bandeira de Mello, aos 13 anos casou com viúvo, Justino três vezes mais velho, levando três enteados. O mais velho dos enteados, também chamado Justino estudou medicina na Bahia, humanitário, caridoso viria a ser o excelente médico, o Dr. Mota Silveira meu tio bisavô. A exemplo da minha bisavó, tivemos vidas paralelas: casei-me aos 22 anos com viúvo, 18 anos mais velho, levando dois enteados

Bom Jardim, cidade berço de figuras de projeção, Henrique Pereira de Lucena por sua atuação em importantes postos da República, recebeu o título nobiliárquico de Barão de Lucena, das mãos da Princesa Isabel. Amigo do magistrado Manuel Tertuliano Travassos Gonçalves de Arruda, do Engenho Passassunga, avô do meu pai, deixou a magistratura para se dedicar à cultura canavieira. Também da família o poeta e jornalista Paulo Gonçalves de Arruda, 1873/1900, patrono da cadeira 19 da Academia Pernambucana de Letras. Não quero esquecer o bonjardinense Francisco Julião Arruda de Paula, 1915/1999 escritor, advogado, deputado federal. Ele e o meu pai, primos e meninos de engenho. Desde então vendo os cambiteiros trabalhando na palha da cana, levou o drama do campo à luta pela democratização, e o acesso à terra, na campanha: ‘Ligas Camponesas.”

Agradeço a presença dos bom-jardinenses, entre eles, meu pai Manuel Cavalcanti de Arruda, por muitos anos atuou como Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, Meus irmãos Mauro Arruda, Manuel Morvile e Milson Arruda, entre os amigos Bráulio Castro e Fátima, pintor J. Alcides, e jornalista e escritor D. Felix, com eles, integro-me por disposição afetiva nessa comunidade. Mesmo sem o anunciado, aprovado, esperado título de cidadã.

Sou bom-jardinense. Isso eleva os meus sentimentos ao plano universal.

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