Lírios da Paz

Luzilá Gonçalves Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 03/04/2018 03:00

Sobre a mesa, um jarro com flores, lírios da paz, informa minha amiga Amélia, que todos os anos a esta época, me traz essa alegria. Um sopro de ar fresco, delicadeza, desejo de chuvas de esperança caindo sobre nós, sobre o pais, sobre a pátria “tão despatriada”, como escreveu Mário de Andrade. Ah, e que caisse sobre os governantes, aqui e além, alguns até, justiça seja feita, honestos, corajosos, confiantes em dias melhores e fazendo seu tantinho de esforço pra que isso aconteça. Nos jornais que transpiram sangue, transmitem guerras “e rumores de guerra”, como dizia o profeta. Nas imagens televisivas, de vez em quando, entretanto, surge o rosto de uma Malala, Prêmio Nobel da Paz ainda adolescente, retornando ao seu pais após anos de corajosa militância e ausência forçada para ter o direito de escolher seu destino, em seu nome e no nome de tantas mulheres. Imagens de Médicos Sem Fronteiras salvando vidas, na África, na Síria, ou o rosto de um poeta lembrando que “a vida é este facho diurno e ardente: só presente”. Fulgurações que nem chegam a fazer esquecer as mortes por bala perdida ou bem dirigida, as mensagens internetivas de ódio enviadas por “canibais de alma”, como se disse neste Diario, semana passada, endereçadas a inimigos pessoais ou a desconhecidos, a personagens políticos de qualquer lado, fazendo com que a gente sofra pelo democracia em perigo. Ou o relato de enormes injustiças que nunca campearam tão livre e descaradamente no país, um dos mais ricos do mundo e um dos mais miseráveis. E a gente ouve um ministro de não sei quê, cantando glórias porque esse ano a nossa safra de cereais foi enorme, a exportação ultrapassou as metas, sem dizer que esses cereais não chegam às mesas de milhões de brasileiros. E pessoas que compraram apartamentos nas luxuosas instalações que alojaram os atletas dos jogos olímpicos no Rio, reclamando de como estão sendo ludibriadas. E ao lado disso o homem que vende cuscuz toda tarde, aqui no Poço, com o apito que a gente ouvia na infância, e que explica que está construindo sua casa “vai devagarzinho, madame, já comprei as telhas”, e o coração dói, como, meu Deus, vendendo um cuscuz a dois reais? Não sei o que aconteceu realmente à pátria amada idolatrada: que aconteceu ao Brasil, que tinha tudo pra dar certo? E para onde foi o homem cordial descrito por um nosso grande historiador? Há uns anos o poeta Daniel Lima me emprestou um livro intitulado Como o Brasil deu no que deu, um resumo histórico, inteligente, bem humorado, de nossos percalços e desmantelos, mas critico e bem escrito pelo grande Darcy Ribeiro que tanta falta nos faz. Ah, eu queria saber onde foi que a gente se perdeu. O Lírio sobre a mesa, só simplicidade e beleza, não consegue dar conta da resposta. Mas Ferreira Gullar já nos tinha indicado que “a voz não alcança o fundo do abismo!”

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