Eleições fragmentadas

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford, Secretário de Acesso a Direitos da OEA.
As opiniões são pessoais e não representam as da OEA.

Publicação: 02/04/2018 09:00

Estamos nos aproximando de uma das eleições de maior incerteza em nossa história recente. O ambiente é de muita radicalização, intolerância e falta de esperança. Alguns propõem soluções messiânicas que aprofundam as divisões. A investigação da corrupção expõe as vísceras de um modelo político falido. Ao mesmo tempo, muitos já percebem que a saída democrática para a crise passa pelo revigoramento da política. Nunca pela sua substituição por atalhos antidemocráticos e autoritários. A figura do outsider têm apelo inicial. Mas a experiência recente de outros países mostra que não representa solução autêntica. Não substitui à altura a atividade política e a experiência dos políticos. É justamente em épocas de crise que a capacidade de diálogo dos políticos torna-se mais necessária. Como mostraram líderes como Churchill, De Gaulle, Obama e Angela Merkel. E Tancredo e Ulysses Guimarães em nossa história recente. No atual clima de exasperação contra os desmandos da política brasileira, precisamos ter cuidado para não colocar todos na vala comum. Não jogar fora o bebê com a água do banho. Há políticos e políticos.

É neste quadro que se começa a discutir o formato das composições e candidaturas. Embora tenha vocação universalista, a política começa pelos arranjos de poder no nível local. Para recuperar credibilidade, os partidos vão buscar legitimação nesse nível de poder regional, com candidaturas e acordos localizados. Que podem se sobrepor à lógica nacional da eleição presidencial. Mormente porque até agora não existem candidatos presidenciais que estejam empolgando o eleitorado. Com a possível exceção do outsider Jair Bolsonaro e sua pregação antidemocrática. O cenário é de muitas candidaturas presidenciais. Cerca de 20. Como na de 1989, quando Collor e Lula passaram ao 2º turno mesmo com diminutas estruturas partidárias. Há, portanto, uma grande incógnita sobre a força  nacional das coligações nessas eleições. Parece mais provável que prevaleçam os arranjos regionais. Assim, um mesmo partido pode apoiar um candidato a presidente em determinado estado e, ao mesmo tempo, o seu competidor em outro. Podem se tornar comuns os palanques estaduais com mais de um candidato na disputa presidencial. Outra incerteza é a força das máquinas políticas tradicionais. Além de ter de escolher um candidato a presidente, o eleitor vai ser chamado a pinçar um governador, dois senadores, um deputado federal e um estadual. Num ambiente de dispersão das fontes de informação, com menor tempo de campanha e menor duração do horário eleitoral. A força das redes sociais é fato novo, claro. Mas às vezes é superestimada. Jim Swigert, diretor do National Democratic Institute, uma ONG americana que trabalha no aperfeiçoamento da democracia, outro dia contou-me que na agenda deles um dos principais temas é o das fake news, embora eles prefiram o termo ‘disinformation’. Ele fala que estão promovendo estudos e seminários sobre como preveni-las, por nelas enxergar ameaça à democracia. Há especialistas que lembram que os algoritmos levam as mensagens das redes, sobretudo as políticas, a significar pouco mais do que ‘pregar para convertidos’.

Há indícios, portanto, de que as próximas eleições serão singulares em muitos aspectos: i) ambiente de descrença, para não dizer intolerância com a política tradicional, que pode aumentar a abstenção e o voto nulo; ii) ressaca de esperanças frustradas; e, iii) dispersão partidária e desgaste de partidos que já gozaram de grande aceitação como o MDB (que conduziu a redemocratização), o PSDB (que acabou a inflação) e o PT (que avançou  a pauta da justiça social). Os novos partidos que estão surgindo ainda não parecem ter substituído os anteriores no afeto das pessoas. Pode-se então imaginar um cenário de muitos riscos e incertezas. Talvez maiores do que em 1989.

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