Não temos a menor ideia

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 28/03/2018 03:00

Suponhamos que seja verdade, que Deus existe mesmo, que nos criou, que Jesus Cristo é Deus vivo e verdadeiro e Se encarnou e morreu por nós na cruz (como celebramos agora nesta Semana). Não temos a menor ideia do que isso tudo realmente significa. Ele pediu ao Pai que nos perdoasse, porque não sabíamos o que fazíamos. Pois não sabemos mesmo: de fato, não fazemos a menor ideia, não temos a mais mínima condição para avaliar o que tudo isso efetivamente é – nem para perceber o que realizávamos ao prender na cruz o Único Inocente, nem para compreender o conjunto todo, o propósito da história e do mundo – quem é Deus e o que somos nós.

Primeiro, a imensidão de Deus, a infinitude, o poder incomensurável – poder que não apenas criou este planeta maravilhoso (o que já seria portento absolutamente fabuloso) mas criou o cosmos inteiro, cosmos espantosamente gigantesco, literalmente inimaginável. E que criou as maravilhas, quase tão infinitas quanto, dos microcosmos. E com tão inconcebível variedade – formas, organismos, cores, aparências, funções, multidões de espécies e infinito de individualidades diferentes. Que Deus é esse – ainda mais imenso do que o cosmos inimaginável? Einstein dizia que o universo é tão inacreditavelmente extraordinário que somente Deus poderia criá-lo. Mas como pode Ele ser tão gigantesco, tão poderoso, tão absoluto? Como podemos ter alguma ideia disso: do absoluto de Deus? Ele está tão acima, tão fantasticamente além de qualquer medida, de qualquer possibilidade de imaginação nossa...

E esse absoluto absolutamente inimaginável nos criar? Não só nos tirar do nada mas ainda nos dar importância? Interessar-se por nós, que somos tão pequenos, tão desprezíveis, tão risíveis? E até mandar seu único Filho, para se encarnar, para assumir a nossa débil e insignificante natureza, para fazer-se igual a nós? Não podemos fazer a menor ideia do que isso realmente representa.

E muito mais ainda: esse infinito absoluto, que é Deus, sacrificar-se, entregar-se a forças absolutamente ridículas diante do poder dEle (“não terias poder algum sobre mim se não te tivesse sido dado do alto”), deixar-se torturar e até morrer numa cruz – morrer por nós? Como pode o absoluto de Deus passar pela morte? E como fez tamanho absurdo por nossa causa, para nos salvar, somente por nós? Quem somos nós, para merecermos tão absurda atenção? Como podemos valer alguma coisa aos olhos de Deus? Não temos a menor ideia do que tudo isso significa. Tão espantoso, tão portentoso, tão incomensurável é.

Ah, se começássemos a fazer alguma ideia desses portentos todos tão inimagináveis, tão acima de nossa compreensão! Quem sabe não começaríamos a viver de outra maneira, a buscar outros valores, a dar importância só aos verdadeiros bens, os bens da eternidade, e não às quinquilharias em que aplicamos nossa vaidade idiota e desperdiçamos a existência?

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