EDITORIAL » País sem excelências

Publicação: 27/03/2018 03:00

A Constituição diz que todos são iguais perante a lei. Mas existem os mais iguais. A começar pelo tratamento. Autoridades que se descolam do povo que lhes paga o salário fazem questão de exibir a distância. Passam a ser tratados de excelência. O substantivo, acompanhado do pronome possessivo, dá um recado nem sempre explícito. Diz que não se pode dirigir a palavra diretamente ao ungido pelo poder. Fala-se à excelência da pessoa, não à pessoa. Reafirma-se, assim, o eu cá, você lá.

A distinção começa no tratamento e se estende por diferentes privilégios. Ocupantes do andar de cima têm direitos negados aos trabalhadores deste país desigual. Um deles: a criação de feriadões. Esta semana serve de exemplo. Por causa da Sexta-Feira da Paixão, o Legislativo deve folgar por 10 dias. Sem o comparecimento de deputados e senadores, interrompem-se os trabalhos. E pautas importantes deixam de avançar à espera da disposição dos parlamentares.

Entre elas, a votação do projeto para crimes relacionados à pirataria. Também deve ser adiada a discussão sobre os pareceres preliminares que tratam dos processos contra os deputados Lúcio Vieira Lima, Paulo Maluf, Celso Jacob e João Rodrigues. Os demais temas, em consequência, ficarão para depois. Prevendo a falta de quórum, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, inverteu prioridades: a deliberação das propostas deu a vez à instalação das 25 comissões técnicas.

Vale lembrar que 2018 é ano eleitoral. No segundo semestre, o Congresso goza de recesso branco: a maior parte dos parlamentares permanece nos respectivos estados para participar da campanha. Outras vantagens se somam à gazeta remunerada. É o caso de prerrogativa de foro, recessos, moradia, transporte, gasolina e de incontáveis penduricalhos muitos dos quais engordam o contracheque sem prestar contas à Receita Federal.

Privilégios não se restringem ao Poder Legislativo. O Judiciário e o Executivo também têm regalias que confirmam a existência dos mais iguais perante a lei. É constrangedor e inaceitável. Estado que se quer moderno precisa sintonizar-se com o século 21. Precisa livrar-se dos entulhos extemporâneos e dar tratamento igual a todos. Num país sem excelências, autoridades andam em transporte público, tratam da saúde em hospital público, matriculam os filhos em escola pública.

Chegaremos lá? A iniciativa dificilmente partirá dos sócios do seleto clube. Ninguém abdica de privilégios porque quer. Abre mão de vantagens porque tem de fazê-lo. O cidadão, que arca com alta carga tributária sem receber a justa contrapartida, tem de tomar a frente. O primeiro desafio consiste na escolha de representantes comprometidos com a leitura correta do tempo. A escolha das urnas é o passo inicial. A cobrança implacável vem a seguir.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.