Além do sim no Facebook

Daniella Brito Alves
Jornalista, assessora de imprensa, mestre em Sociologia e professora da Uninassau.

Publicação: 08/03/2018 03:00

“Se não sabe brincar, não desce para o play”. A expressão usada quando alguém desistia de  uma brincadeira, no meio do jogo,  por não concordar com as regras  já definidas antes  de tudo começar, pode ser bem aplicada quando o assunto são as redes sociais. Texto publicado na edição brasileira do El Pais no útlimo dia 19 de fevereiro chega a questionar o que se fazer com elas e a apontar 2017 como o seu “annus horribilis.”

Exemplos para isso se multiplicam. O próprio texto traz declaração de Sean Parke, primeiro presidente do Facebook em 2014, que afirmou num evento na Filadélfia que “para conseguir com que as pessoas permanecessem muito tempo na rede, era preciso gerar descargas de dopamina, pequenos instantes de felicidade; e que esses viriam pelas marcações de ‘gostei’ dos amigos. Isso explora uma vulnerabilidade da psicologia humana”.

A tal da dopamina é um  neurotransmissor com diversas funções no organismo, entre elas, a liberação de impulsos nervosos que possibilitam a sensação do prazer e bem estar. E quando o assunto envolve o estímulo e  a busca constante pela bendita e tão questionável felicidade nas redes será que não estamos é expostos, fragilizados, desprotegidos?

É inegável que as redes se constituem numa forma de socialização além de limites geográficos, marcada fortemente pela interação, com compartilhamento de ideias, valores e interesses comuns. A princípio. Interação está longe da  concordância em absoluto. As vivências em sociedade são marcadas, sobretudo, pelo contraditório. As mudanças, também. Mas pelo visto, para muitos, no Facebook não.

Essa situação é vista em várias timelines quando a polêmica invade e entra em desacordo com a aparente e tão desejada “plateia virtual repleta de sim”. E quando o outro lado se posiciona, a resposta é muitas vezes o ataque, porta de entrada também de um possível discurso do ódio. Ou pela ferramenta do ocultar. Pronto. Nada aconteceu. Não há opositores. E os que existem são banidos, escondidos. ou alvos de respostas baseadas na hostilidade e discriminação. Estamos seguros no nosso paraíso particular.

Vale destacar que isso não inclui as respostas baseadas na violência, nos ataques desnecessários, nos xingamentos. Esses não querem o debate. Querem apenas o insulto, a ofensa.  Para eles, dependendo de cada situação, resta apenas o banimento.  Contudo, Longe de uma visão apocalítica, pode-se perceber em muitas situações onde uma visão diferente é publicada num contraponto de ideias, que ao se negar ao debate os “estilões” esperam brincar numa bolha de aceitação.  O risco desse comportamento é que essas condutas sejam cada vez mais incorporadas do mundo que é só dos “meus” e de mais ninguém.

Não sabem ou não querem saber, os que pensam como uma via única, que viver no coletivo é viver num campo de pluralidade, repleto de diversas relações de concordância e oposição.  Que ao negar o contraditório podem acabar se isolando e influenciando a maneira de pensar de sua rede, num caminho perigoso não só para as relações, mas para democracia, que se revela pela expressão da vontade da maioria e pela  garantia da voz da minoria.

É assim, desta teia de relações que somos constituídos. Pelo sim, pelo não, talvez.

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