O MDB na história

Fernando Araújo
Advogado, professor, mestre e doutor em Direito. É membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas - APLJ.

Publicação: 08/03/2018 03:00

Foi uma manhã profícua e de muita emoção a que vivi dias atrás no campus da UFPE. Não apenas por estar ao lado de figuras tão representativas de nossa cultura humanista, integrando com elas Banca Examinadora de defesa de tese, no Programa de Pós-Graduação em História, mas também por assistir um jovem de pouco mais de trinta anos enfrentar tema político relevante. Saí convencido de que essa foi a impressão de todos, da presidente da Banca, professora doutora Socorro Abreu e das outras, Socorro Ferraz, Christine Dabat e Marcília Gama. Em silêncio, ouvimos a exposição do doutorando. Rafael Leite Ferreira, com brilhantismo, expôs sobre a historiografia de um tempo recente, mas politicamente muito rico. Demonstrou saber histórico e político, razão pela qual soube bem interpretar os fatos. Retratou com proficiência a luta de homens e mulheres que, em Pernambuco, dedicaram o tempo melhor de suas vidas e sonharam com o retorno do país à normalidade democrática. “Uma Flor Fura o Asfalto: o MDB em Pernambuco (1965-1979)”. Este é o título do trabalho, desenvolvido em mais de 500 páginas, por sinal inspirado no poema de Carlos Drummond de Andrade de 1945 – A Flor e a Náusea. A legenda que surgiu dentro de um bipartidarismo artificial para dar aparência de normalidade política acabou se transformando, contra a vontade dos donos do poder, na grande utopia, esperança e trincheira de resistência democrática. Até porque a opção de enfrentamento pela militância armada foi sendo paulatina e covardemente dizimada. Restou a tribuna, o palanque, as ruas, conquanto mesmo por esse caminho muitos ainda tenham sido mortos e torturados. Rafael foi minucioso. Pesquisou e teve acesso a boas fontes. Soube aproveitar tudo, inclusive a experiência que lhe foi passada por Fernando de Vasconcellos Coelho, ex-deputado federal e Coordenador da Comissão da Verdade Dom Helder Câmara, bem assim Socorro Ferraz, que viveram ativamente essa etapa da história e foram assessorados pelo tesista nesse colegiado por mais de quatro anos. Aliás, ambos estão bem citados por intermédio de seus livros. O trabalho, recomendado pela Banca para publicação, tornar-se-á, por certo, uma referência. Pois é um manual de sentenças claras sobre esse período do MDB, a vida e a conduta política de pessoas. De forma correta, Rafael parte do geral para chegar ao seu tema particular. Por isso tece boas considerações sobre o antes e o depois do 1º de abril de 1964, quando um golpe de Estado, promovido por uma coalizão de militares e setores da elite política, empresarial e econômica afastou o presidente João Goulart e assumiu o poder no país, rompendo de forma violenta com a legalidade. E o que ficou claro é que, naquele momento, chegava ao fim o regime iniciado em fins de 1945, que previa eleições regulares. Em 9 de abril daquele mesmo ano, por intermédio do autodenominado “Comando Supremo da Revolução”, dava-se início à publicação dos famigerados Ais – Atos Institucionais. O AI-1, por exemplo, deu poderes absurdos ao Executivo e pôs de joelho os outros dois Poderes, o que permitiu a cassação dos direitos políticos de vários cidadãos contrários ao novo regime, inclusive parlamentares, governadores e prefeitos com mandatos. O AI-2 extinguiu os partidos políticos no Brasil e o AI-5, em dezembro de 1968, endureceu ainda mais o regime e a repressão, quando as mortes de militantes se multiplicaram país a fora, fatos bem relatados e demonstrados pelas diversas comissões da verdade, inclusive a Dom Helder Câmara. Faço votos que esse trabalho chegue principalmente ao conhecimento dos jovens como Rafael, que mesmo não tendo vivido esse tempo, soube respeitar, valorizar e preservar a luta dos que o antecederam no tempo, muitos assassinados, permitindo que ele, agora, tivesse a liberdade de defender sua tese, o que seria impossível se aquela noite tivesse continuado entre nós. É isso.

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