Porque em Direito se prova qualquer coisa

Lenio Streck
Jurista e professor

Publicação: 07/03/2018 03:00

Cena 1. O coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar. Passou por ali a raposa e viu aquele suculento coelhinho. E salivou, curiosa: “Coelhinho, o que você está fazendo aí tão concentrado?” “Estou redigindo a minha tese de doutorado”, respondeu o coelho. “Chama-se De como os coelhos são os predadores naturais das raposas”.

Ora, isso é ridículo! Nós, raposas, é que somos os predadores dos coelhos! Todos sabem disso. E disse o coelho: “Posso demonstrar o que estou dizendo. Acompanhe-me à minha toca-biblioteca”.

O coelho e a raposa entram na toca. Instantes depois, ouvem-se alguns ruídos indecifráveis. Em seguida, o coelho volta, sozinho, e retoma os trabalhos da sua tese.

Cena 2. Depois passa um lobo, que fazia mestrado sobre Como aprender a preparar coelhos suculentos. Ao ver o apetitoso coelhinho, salivou e perguntou sobre a tese.

“Minha tese de doutorado, caro lobo, é demonstrar que nós somos os grandes predadores dos lobos”, disse o coelho.“E posso demonstrar. Acompanhe-me”. E ambos desaparecem toca a dentro. Ao depois, ouvem-se ruídos.E o coelho retorna sozinho, com seu laptop.

Em cena fechada, dentro da toca-biblioteca vê-se uma enorme pilha de ossos e pelancas de diversas ex-raposas e ex-lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, charutos e vinho, um enorme leão, bem alimentado, a palitar os dentes. No seu peito estava pendurado um crachá, com a inscrição (o leitor pode preencher à vontade: Orientador, ministro, juiz etc).

Moral da história: Não importa quão absurda é a tese (ou causa) que você pretende sustentar (na academia ou nos tribunais). Basta ter poder. Ou estar ao lado do poder. Claro: não devia ser assim. Mas tem sido. Por isso temos de controlar o poder. Ou seremos devorados.

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