Até prova em contrário

Nagib Jorge Neto
Escritor, jornalista e bacharel em direito.

Publicação: 03/03/2018 03:00

Olinda já era vila e do alto dos seus montes mirava o mar, os arrecifes e a vasta planície que se estendia no sentido leste e ao sul. Então os pescadores teriam sido atraídos pela sedução da planície, do verde que se perdia de vista, atravessaram dois braços do Rio Beberibe e ergueram palhoças na nova terra. A vila do Recife, assim ocupada, logo cresceu, progrediu, com sua gente, sua paisagem verde e seus rios Capibaribe, Beberibe, Jiquiá, Tejipió. Os séculos passaram, festas para São Pedro, São João, Rei Momo, Reis Magos, guerras com piratas, invasores, muitas datas e fatos históricos a festejar, mas nada de festas para a cidade.

Por isso, a antiga Vila do Recife, com mais de um milhão de habitantes, mais de 400 anos de vida, lembrou-se em 1967 de ter um dia de festa só para ela. Era então cidade sem data, sem dia para festejar, e lembrou-se de saber quando surgiu, de corrigir os que primeiro pisaram seu solo, pescaram, ergueram moradias e esqueceram de guardar o momento histórico da chegada. A cidade reuniu historiadores, removeu arquivos empoeirados, cartas forais, periódicos, buscou dia, mês e ano, até que afinal encontrou a verdade: ela rigorosamente não foi fundada, mas é povoada desde 12 de março de 1537.

A conclusão era muito prudente, cautelosa, só que não agradou Olinda, sua vizinha, rica de ladeiras, igrejas e prédios coloniais, que questionou a data, duvidou dos documentos, achando que não mereciam fé. Porque antes da sua existência, do Recife ter pescadores, Olinda já havia sido vista, rastreada, entusiasmando Duarte Coelho, seu fundador, que subiu no monte mais alto, olhou os coqueiros, o mar, as praias selvagens e exclamou patético e encantado:

- Oh, linda situação para estabelecer uma vila!

Isso aconteceu nos primeiros anos da colonização, por volta de 1535 ou 36, logo não tinha lógica que Recife, povoada mais tarde, escolhesse como data de fundação o dia 12 de março de 1537, a mesma data oficialmente aceita por Olinda. Daí surgiu um debate acirrado, a dúvida, mas o documento oficial do Recife, sempre cauteloso, deixou um desafio e uma abertura: a verdade seria definitiva “até prova em contrário”. A prova não veio, mas Olinda defendeu sua velhice, com a versão de que Duarte Coelho pisou antes o solo da Marim dos Caetés, fundou a vila.

No auge da controvérsia, a versão foi difundida pelos “garotos contadores” de Olinda, crianças treinadas para exaltar os seus feitos históricos e arrancar dinheiro dos turistas. Os garotos eram acusados de distorcer a história da cidade, mas na época reagiam afirmando que na igreja da Sé de Olinda, onde eram treinados pelo sacristão, “tem muito mais papel velho do que no Instituto Histórico”.

Olinda, assim como o Recife, orgulha-se do heroísmo de sua gente, das lutas travadas contra os invasores, dos combates com piratas e com europeus que tentaram invadir Pernambuco nos princípios da colonização. A cidade começou sua crônica de bravura e de guerra pouco antes de 1537, quando Duarte Coelho, donatário da Capitania de Pernambuco, expulsou dos seus montes os índios Caetés e fez de Olinda a Capital. Nesse tempo, Duarte Coelho construiu caravelões, montou um sistema de defesa, que serviu para o seu sucessor enfrentar e bater em 1.560 os calvinistas que tentaram tomar de assalto o Recife.

Recife, uma simples vila, vivia então sob a proteção de Olinda. Apesar da garantia das armas e dos homens dos montes, a planície foi ocupada pelo pirata João de Lancaster, que permaneceu um mês no território com ajuda de Wenner, outro pirata, e de embarcações holandesas. Sempre como protetora do Recife, de toda a costa pernambucana, Olinda viu desembarcar em 1630, no Forte de Pau Amarelo, uma frota holandesa com três mil homens. A resistência durou pouco: Matias de Albuquerque, autoridade portuguesa, logo abandonou Olinda e Recife e tentou organizar a reação fundando o Arraial Novo do Bom Jesus. Na fortificação improvisada, Matias de Albuquerque tratou de mobilizar tropas, mas os holandeses, numa tática audaciosa, incendiaram Olinda e tomaram conta do Recife.

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