A cultura humanista

Roque de Brito Alves
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 28/02/2018 03:00

1 - Entendemos que a denominada “cultura humanista” deve ser amplamente conceituada em termos de aperfeiçoamento espiritual do ser humano e para servir à vida, sempre com o olhar sobre o mundo, como uma janela aberta para a realidade, não fechada dentro de si mesma, o humano total e não somente o humano racional ou intelectual.

Deve ser uma cultura para a vida, com uma “concepção do mundo”,  como uma cultura humanizada e não uma simples soma, acúmulo ou reunião de conhecimentos que será “erudição” e não “cultura humanista”, em  nossa compreensão. Assim, alguém pode ser “erudito” porém não é “culto” caso não exista tal cultura aberta para a vida, para o mundo, visando sempre aperfeiçoá-lo como ser humano.

Mesmo assim, geralmente quem é culto tem erudição, um analfabeto ou ignorante não pode ser culto porém muitas vezes tem inteligência ou talento, pois psicologicamente são conceitos ou dados bem distintos. Exemplificamos com os violeiros repentistas nordestinos que glosam ou fazem poesia de improviso,  na hora, sobre qualquer assunto, são muitos talentosos mesmo que não sejam cultos ou eruditos. A ignorância elimina, exclui, por si mesma, cultura ou erudição porém não elimina a inteligência ou talento pois um analfabeto pode ser talentoso ou inteligente.

2 – Também entendemos que a verdadeira cultura em significado humanístico somente pode existir se o cultor da Filosofia, da Ciência ou Direito vier a uni-los com a Arte  em todas as suas manifestações como literatura, música,  pintura, escultura, teatro, cinema e não se restringir a  ficar  especialista em um ramo do saber humano por mais amplo e  profundo que seja o conhecimento a tal respeito.

3 – Por outra parte, em tal cultura humanista, a Arte não é  para ser compreendida,  para ser justificada ou explicada pois não visa a  verdade que é objeto ou finalidade da Filosofia, da Ciência ou do Direito pois mais do que sentida a  Arte deve ser amada ao buscar o belo. Ao revelar o belo em termos puramente estéticos, a Arte atende a uma profunda necessidade humana enquanto em nosso entendimento a verdade corresponde a uma necessidade lógica sob termos filosóficos, científicos ou jurídicos.

A verdade e o Belo são essencialmente dois valores distintos, são dois conceitos diferentes no amplo campo da cultura. Entretanto, a verdade mesmo filosoficamente analisada ou cientificamente exposta pode ser expressa sob uma bela forma literária. Portanto, embora valores ou conceitos distintos não são inconciliáveis, incompatíveis, não se excluem mutuamente, em nossa opinião.

Se a Filosofia pode atingir a essência do ser através da metafísica, se a  Ciência consegue lançar o homem  ao espaço ou obter  a  divisão  do átomo, se o Direito pode expor o ideal absoluto de Justiça,  afirmamos também  a perfeição maior da Arte quando se fica extasiado perante uma escultura de Michelangelso ou de Rodin ou com o genial contraste de luz e sombra, de claro-escuro,  nas pinturas de Rembrandt (século 17)  ou de Caravaggio (1571-1610). Igualmente nas páginas imortais dos trágicos gregos, de Dante,  de Shakesperare e Dostoievski, de Balzac sobre as virtudes, os vícios, os pecados da natureza humana. Assim sendo, a Arte é indispensável para uma verdadeira cultura humanista.

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