Democracia lânguida

José Luis Simões
Professor do Centro de Educação/UFPE.

Publicação: 27/02/2018 03:00

Defendo que o melhor sistema político, com capacidade de promover inclusão social, igualdade de oportunidades e justiça é a democracia. Ademais, a democracia fortalece o exercício da civilidade e do respeito às diferenças. Todavia, os recentes acontecimentos da política no Brasil externam a languidez da nossa jovem democracia.

O sistema democrático premia a arte do diálogo e negociação. Promove o respeito às minorias e garante a livre expressão de opiniões na sociedade brasileira, que é complexa e plural. Nenhum cidadão imbuído de espírito democrático e que tenha conhecimento mínimo da história do país defende a volta dos militares ao poder, o autoritarismo e a restrição de liberdades.

No livro A Ditadura Envergonhada, o jornalista Elio Gaspari lembra que o combustível que moveu a história na direção do golpe militar em 1964 foi o dirigismo conservador e anticomunista que eclodiu nos anos 50. Essa corrente de pensamento foi produto da guerra fria e se projetou sobre a direita brasileira, que questionava o direito ao voto popular. A estratégia era a seguinte: sob o argumento de que o povo não sabia escolher seus governantes e estes, uma vez no poder, se locupletavam e não sabiam governar porque gastavam mal o dinheiro público, a solução seria retirar do povo o direito de votar.

Nos protestos populares a favor do impeachment em 2016 havia diversas manifestações em defesa da volta à ditadura militar. A história parece querer se repetir. Uma parte da direita no Brasil, enfim, perdeu a vergonha, saiu do armário, atraiu “manifestoches”, foi às ruas e se bestializou ao redor do pato da FIESP. Outra parte pretende eleger o capitão Bolsonaro presidente do Brasil.

Quem usa o termo “impeachment” já não está do lado oposto de quem usa o termo “golpe”. O fato é que houve mudança radical nas políticas públicas em curto espaço de tempo. Os políticos de oposição, de repente, se entronaram no governo. Quem governava foi expurgado para oposição.

Em suma, a conjuntura política atual evidencia a fragilidade da democracia brasileira. Castas econômicas privilegiadas não têm partido político nem compromisso com a democracia, pois estarão sempre do lado daqueles que podem ajudar a gerar mais lucros e dividendos. Por exemplo, a malfadada reforma da Previdência seria ótimo presente para as operadoras de previdência privada, não para o povo.

Não há humanismo ou solidariedade no capitalismo selvagem. Sob a lógica de mercado, na política do vale-tudo, a democracia só serve enquanto for lucrativa, e para poucos. Há o salve-se quem puder, o domínio do mais forte sobre o mais fraco. Mas devemos lembrar sempre que a democracia, por mais frágil que seja, traz em sua essência algo que não se pode comprar: liberdade. 

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