Ronaldo Correia de Brito, criador de personagens

Raimundo Carrero *
raimundocarrero@gmail.com

Publicação: 26/02/2018 03:00

A editora Alfaguara está publicando, num volume só, os contos de Faca E Livro dos Homens, de Ronaldo Correia de Brito, o que nos possibilita uma visão completa da sua já consagrada obra, sobretudo no campo da narrativa curta, onde o autor se realiza plenamente, com personagens e situações de alta criatividade. Alta, refinada e sutil.

Mas o livro precisa de um título geral para revelar a verdadeira dimensão do autor, dono de um obra inquietante, extremamente bem escrita, reveladora de um caráter literário que conduz o leitor para o belo e para o maravilhoso, para o político e para o social, considerando-se a construção humana dos seus personagens e de suas histórias, repletas de injustiças e de questionamentos    Sem risos, mas repleta de tiros e de dores.De mulheres enlouquecidas e verdadeiras.

De Ronaldo Correia pode-se dizer que é um criador de personagens, sobretudo femininas, destacando-se o que elas revelam e não apenas pela narrativa . Os fatos ou os acontecimentos estão ali para iluminá-las, tamanha a sua grandeza e força criadoras.

Veja-se, por exemplo, o caso de Cícera Candóia, não menos enlouquecida que a mãe naquela solidão, a mãe que sempre desejara o conchego de terra molhada. E que Ciça não podia satisfazer, mesmo depois de morta. A personagem é tão boa a tão bem realizada que os fatos, embora contribuam para a construção do seu caráter, podem ser vistos como a realização do destino inevitável.

Até porque este é um escritor em que o inevitável está sempre à espreita. Um destino consagrado na terra árida e seca, ou espantado por um tiro de rifle. Sem dúvida, contos em que a fatalidade e a solidão ocupam um lugar fundamental. Deixem Ciça Candóia existir e a história se realizará plenamente. Ela não precisa de fatos, ela é. Deixem que venha à janela e triunfará sobre o mundo, em silêncio.

Mas há também o caso de Inácia Leandro, marcada pela desilusão amorosa e pelo silencio que marca as paredes da casa,, estas pobres casas interioranas marcadas pelo silêncio e pela tragédia, com homens que entram e saem deixando apenas o passado.  O passado vazio.

Oportuna ou oportuníssima esta edição da Alfaguara, destinada a eternizar uma obra que se torna cada vez mais imprescindível, reclamando maior número de leitores.   

Ronaldo Correia de Brito não é um escritor do sertão ou da cidade. É um escritor universal porque a sua obra não tem lugar nem região, mas desloca-se pelo mundo, interpretando aquilo que há de dramático, risível? ou inquietante no humano. Isso mesmo: revela o humano com o seu cortejo de tristezas e alegrias. Vale a pena ler Ronaldo imediatamente.

* Escritor e jornalista

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