Lula e o caos no Rio de Janeiro

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 24/02/2018 03:00

Estudo recente em Teoria dos Jogos trata do papel da liderança no comportamento dos agentes sociais a partir de seu exemplo e conhecimento público de suas ações a baixo nível de incerteza, quando comparado ao que existe quanto ao comportamento dos demais cidadãos comuns com os quais os indivíduos poderão interagir na sociedade. Tal pesquisa foi realizada por Daron Acemoglu (futuro Prêmio Nobel em Economia) e Matthew Jackson e foi publicado em 2015 na The Review of Economic Studies. Nele os autores mostram que as lideranças podem influenciar bastante o comportamento social de novas gerações na sua probabilidade de respeitar normas positivas para o bem-estar de todos. Contudo, também podem ter o impacto inverso na sociedade, incentivando comportamentos nefastos a partir de seus exemplos. Talvez seja possível explicar os eventos recentes no Rio de Janeiro à luz desses desenvolvimentos teóricos.

Recentemente, vimos no Rio de Janeiro uma situação inusitada no Brasil, pelo menos em sua frequência. Vários bandos de indivíduos atacavam outros, geralmente em bem menor número ou mesmo sozinhos, com o intuito de assaltá-los. Observa-se a estrutura cooperativa no crime e a disposição a violar normas coercitivas que visam coibi-lo. A escalada repentina do crime parece indicar que houve realmente redução da eficiência da segurança pública local nos últimos meses, pelo menos na visão dos potenciais marginais. Essa percepção impulsiona o instinto criminoso porque diminui a probabilidade de punição aos indivíduos que o extravasarem. No entanto, a cooperação de vários indivíduos numa mesma ação criminosa talvez esteja dando também um outro sinal quanto às origens da escalada verificada. Não foram só crimes individuais que se elevaram, mas crimes com participação de números grandes de indivíduos.

Pelas proposições introduzidas por Acemoglu e Jackson, mencionadas acima, as fortes evidências recentes de corrupção entre altas lideranças sociais, como o ex-presidente Lula e alguns de seus colaboradores próximos, como Pallocci e José Dirceu; o presidente Temer e seus colaboradores, como o Rocha Loures; Aécio Neves e sua irmã, além de lideranças empresariais importantes, como Marcelo Odebrecht, Eike Batista e Joesley Batista, certamente sedimentaram exemplos que impulsionam a população para o crime. Todos esses criminosos estimulam as práticas semelhantes de outros, pois o comportamento de violação de normas passa a ser algo não tão condenável na percepção das pessoas. Isso facilita o diálogo nos diversos ambientes sociais em que o crime encontra eco, pois uma mobilização de cerca de dez pessoas para fazer uma ação criminosa requer um processo inicial de mobilização e coordenação que não é facilmente realizado em ambiente em que o crime é ideologicamente condenável. Os líderes dessas ações não hesitaram em se expor perante aos demais membros de suas coletividades ao mobilizar outros indivíduos para as ações. Isso significa que o crime se tornou socialmente mais aceitável em várias comunidades no Rio de Janeiro. Certamente a recente condenação de Lula no TRF-4 fortaleceu a crença social de que ele cometeu os crimes dos quais é acusado. Isso seguramente aumentou a aceitação do crime, e coincide com a sua escalada com participação de grupos grandes de indivíduos como foi visto no Rio de Janeiro. Ou seja, a maior ineficiência da segurança pública talvez não seja a única causa do aumento do crime no Rio de Janeiro. O aumento da percepção de que lideranças sociais importantes, que eram socialmente valorizadas, e que representavam exemplos a serem seguidos, entregaram-se ao crime leva a um afrouxamento da repressão social ao crime a partir da moral. Isso pode ter contribuído para alavancar o crime no Brasil e no Rio de Janeiro.

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