As chuvas e o perigo das cheias

Luiz Ernesto Mellet
Gestor governamental da Secretaria de Planejamento de Pernambuco

Publicação: 21/02/2018 03:00

Num espaço de sete anos, duas enxurradas de proporções diluvianas varreram os municípios da Mata Sul de Pernambuco. Não foram casos isolados. A região é historicamente castigada por inundações. As origens desses tsunamis vêm de uma combinação de causas que passam pela destruição do meio ambiente e fenômenos climáticos. Com a aproximação da temporada de chuva é grande a possibilidade de que voltem a ocorrer.

Por na mudança dos humores do clima a razão das enchentes é estreitar o assunto. A geoeconomia e a complexidade socioantropológica da Zona da Mata pernambucana exigem análise mais profunda. Afinal, tempestades são comuns nas regiões tropicais e não se pode isolar nas fortes precipitações a culpa pelos reiterados aguaceiros. Cabe tentar entender os motivos pelas quais as cheias acontecem e procurar soluções para que tragédias como as de 2010 e 2017 não se repitam mais.

A Mata Sul é o desaguadouro de rios que nascem nas grandes elevações no centro do estado. No declive do planalto se conecta a outros e desembocam na planície litorânea. Ao sabor dos séculos, a floresta e a vegetação ciliar mantinham os cursos d’águas escorrendo sem problemas entre os vales sinuosos. As chuvas nas cabeceiras aumentam o volume dos rios e o deflúvio escorrega com mais velocidade nessa espécie de tobogã natural.

Sem levar em conta critério algum de sustentabilidade, os brejos, as várzeas e quase toda floresta atlântica foram tingidas pelo verde da cana, exaurindo gradualmente a fertilização do solo. Ao mesmo tempo, os escravos dos engenhos a vapor extraíam lenha para o fogo das caldeiras. O surgimento das usinas ampliaria ainda mais as plantações.

Com maior área plantada o trabalho se intensificaria. O despejo de resíduos tóxicos das usinas e os dejetos lançados pelos ribeirinhos foram aos poucos poluindo os afluentes. Com gente cada vez mais chegando, as margens dos rios foram ocupadas de barracos. E a reboque da herança deixada pela monocultura canavieira, o meio ambiente da Mata Sul e tudo que nele havia foram se acabando.

De modo que qualquer um que investigue os motivos pelos quais as enchentes continuam atormentando a vida dos pernambucanos vai poder constatar que a falta do rigor da lei, no que diz respeito à preservação das bacias e o apoderamento indevido das margens, está no centro da questão. 

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