A missionária Iemanjá

Anco Márcio
Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras (UFPE)

Publicação: 10/02/2018 03:00

No último domingo, 4 de fevereiro, a vereadora recifense Michele Colins postou na sua página do Facebook que realizara uma “noite de Intercessão no Recife, orando por Pernambuco e pelo Brasil, na Orla de Boa Viagem, clamando e quebrando toda maldição de Iemanjá lançada contra nossa terra em nome de Jesus. O Brasil é do Senhor Jesus.”

Nesse triste e lamentável episódio, a minha atenção se voltou para dois pontos. O primeiro, de caráter eminentemente político, é constatar que quem deveria ser a guardiã da Constituição Federal (como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara de Vereadores), parece demonstrar pouco apreço para com os valores religiosos dos povos e comunidades tradicionais de Matriz Africana. Saber separar as crenças e valores da esfera privada das que regem a coisa pública não é apenas um princípio republicano, mas, antes de tudo, um sinal de urbanidade. Não basta ter recebido uma boa educação religiosa (e sendo cristão, praticar o amor ao próximo), a convivência em uma sociedade democrática e republicana exige também uma boa educação cidadã.

O segundo ponto, de caráter teológico, foi essa breve passagem da postagem: “clamando e quebrando toda maldição de Iemanjá lançada contra nossa terra”. Confesso que fiquei confuso que tal enunciado viesse de alguém que se define como cristã. Explico.

Se para as religiões monoteístas só existe um único Deus, já que os demais deuses e orixás seriam frutos da imaginação daqueles que os cultivam, como é que Iemanjá, essa entidade imaginária que só existiria no mundo idílico de algumas pessoas, pode lançar uma maldição contra a nossa terra ou mesmo interceder sobre as nossas vidas se, dentro de uma concepção monoteísta, frise-se, a sua existência é tão crível quanto personagens mágicos e ficcionais como Papai Noel, Cinderela, Fada Madrinha e Super-Homem?

De quatro uma: ou assistimos, nesse episódio, uma encenação em que religiosos, fundados sobre o temor de muitos “e a esperteza de poucos”, como diria Stendhal, fingem combater um “inimigo” que eles sabem ser tão verdadeiro quanto Zeus, Júpiter ou He-Man, ou temos aqui (e este é o segundo ponto) um caso de esquizofrenia coletiva, em que religiosos, confundindo realidade com fantasia, acreditam que esse “inimigo imaginário” não é, na verdade, “imaginário”, como até então se acreditava, mas sim tão real quanto os dias em que Jonas viveu no ventre da baleia. Uma terceira hipótese, é que o Deus de Abraão, contrariando os monoteístas, é apenas um entre tantos outros deuses que habitam o mundo celeste, a exemplo de Iemanjá, que, nesse caso, não só existe de fato como possui poderes para amaldiçoar a nossa terra. Por fim, eis a quarta hipótese, deuses e orixás são, na verdade, os muitos disfarces que o Demônio encontrou para enganar os homens e roubar as suas almas.

Sendo verdadeira esta última hipótese, de duas uma: ou o Demônio não é isso tudo que dizem dele, pois até onde sabemos os “seus supostos seguidores” nunca foram instigados a destruir templos de outras religiões, fazer proselitismo nas mídias e constituir uma bancada religiosa no parlamento, ou, de modo inverso, o Demônio (e aqui temos o segundo ponto) é tudo isso mesmo que dizem dele, mas, para sobreviver no mundo moderno, ele terceirizou as suas atividades, delegando-as aos políticos, banqueiros e empresas de telemarketing. Há quem diga que nesse grupo se encontram alguns líderes religiosos. Não creio. Pura maledicência da oposição.

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