Cearenses pernambucanos (I)

Benedito Parente
Engenheiro eletrônico pelo ITA e Master of Science by Research pela University of Manchester

Publicação: 10/02/2018 03:00

Pernambuco teve grande influência sobre o Ceará desde os tempos das capitanias. A Capitania do Ceará, criada em 1534, foi logo anexada à Capitania de Pernambuco. E o Ceará foi governado por Pernambuco até 1799. Mas o intercâmbio entre os dois estados continuou. Muitos cearenses estabeleceram-se em Pernambuco e até hoje têm seus nomes ligados à vida pernambucana. Três deles deixaram uma marca registrada duradoura no imaginário popular.

O primeiro, Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no Ipu, pequena cidade do Norte do Ceará, em 5 de junho de 1863. Após a morte do pai, Delmiro Porfirio de Farias, na Guerra do Paraguai, a mãe, Flora da Cruz Gouveia, mudou-se para Pernambuco. Ficaram em Goiana até 1872 e depois vieram para o Recife. Com a morte da mãe em 1878, Delmiro teve que começar a trabalhar ainda com 15 anos de idade.

Trabalhou para a Brazilian Street Railways Company e para as Casas Pernambucanas, do imigrante sueco Herman Theodor Lundgren. Em 1896 fundou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. Três anos depois inaugurou o Mercado do Derby do Recife, que pode ser considerado o primeiro shopping center do Brasil.

O empreendimento tornou-se um sucesso estrondoso e logo em 2 de janeiro de 1900 foi incendiado a mando do inimigo político, o Conselheiro Rosa e Silva, que era o vice-presidente da República na época.

Com essa perseguição política, Delmiro fugiu do Recife e montou seus negócios na pequena cidade da Pedra, no coração do lado alagoano do Sertão do São Francisco, em 1903. Ali, construiu 520 km de estradas e introduziu o automóvel no Sertão Nordestino. E logo começou a planejar a construção de uma usina hidrelétrica em Paulo Afonso, que inaugurou em 26 de janeiro de 1913, com potência de 1500 HP, passando a ser a segunda hidrelétrica em solo brasileiro.

Em 1914 iniciou a produção de linhas de costura das marcas Estrela e Barrilejo, na sua Companhia Agro Fabril Mercantil, e rapidamente dominou o mercado de linhas no Brasil e em toda a América do Sul. O conglomerado Machine Cotton, baseado em Manchester, Inglaterra, sentiu-se ameaçado num mercado que antes era todo seu, e de tudo fez para comprar a fábrica nordestina. Delmiro recusou tenazmente todas as propostas de compra de sua fábrica. Na noite do dia 10 de outubro de 1917, enquanto lia um jornal na varanda de sua casa, na vila com mais de 200 casas que ele havia construído para seus funcionários, o cearense Delmiro Gouveia foi assassinado à bala.

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