EDITORIAL » Orçamentos espelham as omissões

Publicação: 09/02/2018 03:00

Os sinais eram visíveis. Um relatório do Tribunal de Contas do Distrito Federal, de 2012, indicava os locais periclitantes e que exigiam reparação “urgente” pelo poder público, entre eles o viaduto de ligação entre as asas Norte e Sul — reconhecido como da Galeria dos Estados —, em frente ao Setor Bancário Sul, principal centro financeiro da capital do país. Os sucessivos governos desconsideraram os alertas, produzidos a partir de vistorias técnicas, o que não exime de responsabilidade a atual equipe do Executivo distrital.

O então diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), Henrique Luduvice, exonerado na tarde ontem, admitiu que a manutenção recomendada foi realizada em vários viadutos, exceto no que desmoronou na manhã de terça-feira e por onde o tráfego de carros chega a mais de 50 mil veículos por dia, além de ser um local de grande densidade de trabalhadores.A definição de prioridades foi, no mínimo, equivocada.

Inaugurada há 57 anos, Brasília foi colocada na berlinda. Mas os erros cometidos não são singulares, embora isso não amenize em nada o desleixo que o desabamento revelou. Em todo o país, as tragédias são frequentes, pois a grande maioria dos governantes têm pouca ou nenhuma preocupação com a manutenção regular e adequada dos bens públicos, sejam obras de uso coletivo, sejam monumentos. Os que chegam ao poder têm, entre suas principais preocupações, fazerem novas construções e cerimônias comemorativas, conquistarem espaço na mídia, aparecerem bem na foto para os eleitores, sempre de olho na eleição seguinte.

Às vésperas da abertura da Copa do Mundo 2014, o viaduto, na Avenida Pedro I, desabou no bairro da Pampulha, em Belo Horizonte. Duas pessoas morreram e 22 ficaram feridas. Faltou fiscalização na obra. Em abril de 2016, ocorreu o desabamento de um trecho da ciclovia Tim Maia, em São Conrado, na zona sul do Rio de Janeiro, matando duas pessoas. Em comum, todas as tragédias têm o ingrediente a omissão das autoridades na verificação dos projetos, dos cálculos e na fiscalização das obras. Há muitos exemplos que marcam a história das cidades brasileiras.

A alegada falta de recursos está sempre presente nas justificativas das autoridades. A ausência de previsão decorre de um planejamento capenga, que ignora essa necessidade no momento da formulação do orçamento. Os governantes optam por uma folha salarial inchada, em vez reduzir gastos e destinar dinheiro público às reais necessidades das urbes e da população.

Assim, sempre é curta a verba da educação, da saúde, da segurança, do saneamento básico e ela inexiste para cuidar da manutenção regular das edificações da cidade. As promessas de campanha não passam de compromissos vazios. É uma cultura perversa que não mudará a não ser que os cidadãos tenham consciência que a transformação passa pelas escolhas que fazem diante da urna eleitoral.

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