Populismo regressivo

Maurício Rands *

Publicação: 05/02/2018 03:00

O populismo está em ascensão, apesar de ter sofrido algumas derrotas em 2017. Em alguns países, partidos populistas xenófobos são a principal força no governo (Hungria, p.ex., com o Fidesz). Mais comum é que esses partidos integrem alianças formal ou informalmente. Como hoje ocorre com Áustria, Bulgária, Dinamarca, Finlândia, Letônia, Holanda e Noruega, para ficar na Europa. Ou tenham suas bandeiras encampadas por partidos tradicionais de centro ou de direita. Como algumas do UKIP no Reino Unido do Brexit. Segundo estudo do Instituto Tony Blair (The Economist de 3/2/2018), o voto populista na Europa passou de uma média por país de 8,5% em 2000 para 24,1% em 2017. Na Europa, o número de países com populistas integrando o governo subiu de 7 em 2000 para 14 atualmente.

Pretendendo expressar os “reais” interesses do povo, seus líderes atacam as elites insensíveis, a mídia, os políticos e os estrangeiros imigrantes. Todos pintados como ameaça e causa para o abandono e exclusão experimentado pelas massas. Simplificam pretensas soluções para problemas complexos. Pregam a divisão das sociedades, o ‘nós (puros e bons) contra o ‘eles’ (os malvados e culpados pelos males do povo). Dizem representar a verdadeira vontade do povo. Atacam as instituições públicas e as organizações da sociedade civil. O populismo pode-se apresentar sob diversas variantes: étnico, homofóbico, misógino, ético, nacionalista, classista, identitário, judicial e militarista. No mais das vezes, as distintas versões combinam mais de uma dessas facetas. Como realça o professor Muller, da Universidade Princeton, os populistas tendem a afirmar que só eles representam o povo (puro e unificado) que é traído por elites corruptas e moralmente inferiores.

Na raiz do crescimento do populismo regressivo está o sentimento de exclusão, hoje tão forte tanto em países do centro como da periferia. Os perdedores da globalização e das inovações tecnológicas. Não foi à toa que Donald Trump, em 2016, conseguiu tanto apoio entre os trabalhadores brancos de áreas que antes sediavam fortes indústrias, como Detroit, em Michigan.

O difícil é enfrentar as causas do populismo. Governos que valorizam as instituições, a sociedade civil, a democracia e o multilateralismo têm diante de si o enorme desafio de implementar outro tipo de desenvolvimento. Para isso, vão ser instados a desenhar políticas públicas inovadoras capazes de endereçar os males do tempo. Que incentivem a inclusão dos desfavorecidos. Na questão dos imigrantes e refugiados, p. ex., precisarão promover ações que os integrem nos países de destino. Com acesso à formação educacional e profissional, os imigrantes poderão contribuir para o desenvolvimento econômico e cultural dos países que os recebam. Nesse processo, o apelo das soluções fáceis dos populistas tende a esmaecer. Verdadeiros democratas, de matizes liberais ou socialistas, vão precisar levar a sério a hipótese de cooperação se quiserem manter os compromissos democráticos proclamados. Isso vai ser necessário para superar o populismo. Como estão fazendo a Democracia Cristã de Angela Merkel e os social-democratas do SPD na Alemanha. No Brasil, para superar apelos como os de Bolsonaro. Mas também para reconstruir o país. Econômica, social e eticamente.

* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, Secretário de Acesso a Direitos da Organização dos Estados Americanos.
* Opiniões do autor, que não representam posições da entidade a que está vinculado.

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