Os economistas do Brasil

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 03/02/2018 03:00

Estive nos últimos dois dias no Rio de Janeiro em encontro dos “economistas do Brasil”, grupo que reúne mais de 100 economistas, alguns dos maiores nomes de nossa profissão no país. O encontro serviu para discutir nossas prioridades econômicas e para definir propostas que possam acelerar nosso desenvolvimento. O resultado deverá ser apresentado em carta aos brasileiros, que vai circular nos maiores jornais do país, o Diario de Pernambuco entre eles. Poderá ser vista como uma contribuição de expoentes da profissão para a população de nosso país em momento de eleição tão importante. Vários dos presentes lecionam em algumas das universidades brasileiras de maior reputação em Economia ou mesmo em universidades estrangeiras. São profissionais que pensam o Brasil com honestidade intelectual, sem interesses ocultos. Vários consensos foram revelados, alguns que discutirei aqui.

Os maiores problemas do Brasil reconhecido pelos economistas são: (i) baixa taxa de crescimento possível; (ii) desigualdades de renda elevada; e (iii) ineficiência na alocação dos recursos hoje existentes, o que gera baixa produtividade total dos fatores de produção e compromete a capacidade de crescimento. Várias são as mudanças estruturais necessárias para resolver esses problemas: A reforma da Previdência figura entre os maiores consensos defendidos pelos economistas para tal. Ela á necessária para promover o ajuste fiscal estrutural de médio e longo prazos, reduzir privilégios de alguns segmentos sociais e melhorar a distribuição de renda do país. Outro consenso é que precisamos de ter regras completamente diferentes para definir os investimentos em infraestrutura econômica, de forma que haja incentivos para os agentes privados se envolverem com mais agressividade. Regulação, regras de concessões, e sistemas de fiscalização são algumas das mudanças que precisamos para incrementar e tornar mais eficientes os investimentos em infraestrutura. Hoje investimos menos de 2% do PIB em infraestrutura e precisamos investir mais de 4% para assegurar eficiência produtiva.

Outro consenso é que precisamos de uma reforma tributária que simplifique os tributos e gere incentivos melhores para a eficiência produtiva, além de promover a distribuição de renda. Hoje nosso sistema tributário é neutro, mas com os níveis de desigualdades que possuímos, precisamos de uma estrutura tributária mais distributivista. Além disso, ele fomenta muitos incentivos produtivos inadequados, gerando ineficiência. As mudanças precisam superar esses problemas. A legislação trabalhista também é vista como ainda gerando incentivos perversos, mesmo após a reforma realizada. Precisamos de retirar dos trabalhadores o incentivo à rotatividade no emprego, devido à multa do FGTS e regras do seguro desemprego. Essas mudanças levariam a mais investimentos das empresas nos seus funcionários e com isso elevaria a produtividade da economia, os salários e o bem-estar.

Os incentivos inadequados para P&D também têm gerado um gap importante nos resultados concretos de nosso desenvolvimento tecnológico. O Brasil se atrasa tecnologicamente e não gera um ambiente de evolução permanente da produtividade no meio empresarial. Melhores incentivos também são necessários na política de inovação no país. No comércio exterior, tivemos um processo lento de isolamento da economia brasileira, o que deixou o país fora das cadeias produtivas globais, ao longo dos governos Lula e Dilma. Isso prejudicou o crescimento de nossa produtividade, inclusive pela redução da concorrência a que nossas empresas estão sujeitas. Maior abertura comercial, com queda das barreiras tarifárias e não tarifárias, é um instrumento importante para impulsionar o nosso desenvolvimento.

Políticas sociais precisam de mais focalização, simplificação e ganho de eficiência, além de serem mais justas. A Previdência social é a maior política social do país, só que transfere dinheiro dos mais pobres para uma elite de funcionários públicos, consistindo numa política altamente concentradora de renda. Daí a necessidade de reformá-la. Na educação, o foco agora deve ser a qualidade do ensino. Para isso, a expansão das escolas de tempo integral e a criação de incentivos a professores e diretores, além da utilização de mecanismos que elevem a gestão das escolas são instrumentos fundamentais. Enfim, a agenda é extensa e bem conhecida. Remover os obstáculos enraizados em privilégios (ou direitos) adquiridos é o grande desafio.

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