Carlos de Lima numa placa

José Luiz Delgado
Professor de Direito da UFPE

Publicação: 02/02/2018 03:00

Excelente iniciativa, a do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, de colocar placas em algumas ruas, destacando o nome que receberam, com um resumo da história e do valor do personagem homenageado. Creio que a ideia foi do sempre atuante e criativo Silvio Amorim, que merece todos os parabéns. Mais de 100 placas já foram apostas. Uma das últimas foi a de Carlos de Lima Cavalcanti.

Carlos de Lima não foi apenas um governador (e por 7 anos, de 1930 a 1937), nem apenas um dos lideres da revolução de 30 em Pernambuco. Foi a própria revolução. Foi o homem de 30 em Pernambuco. Com a particularidade de que, desencadeada simultaneamente em quatro Estados somente em Pernambuco se levantou ela contra simultaneamente o governo federal e o estadual. Somente aqui ela foi inequívoca e propriamente popular.

Luiz Delgado, que não era partidário da revolução (nunca acreditou em revoluções), e, dentro do palácio (como oficial de gabinete da Secretaria de Justiça) era o único que não usava lenço vermelho, acabou, por circunstâncias curiosas, continuando na função e pôde testemunhar de perto o início da administração revolucionária. Passados alguns anos foi feito secretário de Governo e, depois, de Justiça de Carlos de Lima e, nesta condição, preparou o termo de posse do interventor nomeado pelo golpe de Estado de 37. Muito depois, pouco antes de sua morte, Carlos de Lima o procurou para lhe entregar o seu arquivo, esperando que Luiz Delgado escrevesse, a partir daí, a história da revolução de 30. Papai sugeriu a Carlos de Lima que confiasse o arquivo à guarda do Instituto Arqueológico, e assim se fez. Imagino que ficou com certa dor de consciência, como se faltasse àquele de quem se tornara bom amigo, e resolveu ao menos deixar escrito um denso depoimento pessoal sobre o interventor/governador a quem chamou (já no título do livro) um “grande de Pernambuco”.

Aponta-o como modelo de idealismo e honradez. Legenda pernambucana. Vibrante e impulsivo, mas caloroso, espontâneo, isento de cálculos e dissimulações. Interessado sempre no bem comum, no serviço ao Estado, até perdendo patrimônio e se empobrecendo na política (parecido com o que se vê hoje?), absolutamente rigoroso no trato da coisa publica, exigente com os outros e com os auxiliares mas sobretudo exigente consigo mesmo, agindo sempre com perfeita coerência a seus princípios, justo (e até generoso) mesmo com adversários e críticos. Líder empolgante, suscitador de devoções e entusiasmos, capaz de levar um Luiz Delgado, sempre muito reservado, a confessar não saber ao cabo se (seus secretários) “nos dedicávamos ao êxito de seu governo ou apenas a Pernambuco simbolizado nele”.

As revoluções são eficazes? São coerentes? Conseguem manter suas propostas? Realizam os seus sonhos? O caso da revolução de 1930 é o mais cabal desmentido a essas utopias. Mas Carlos de Lima representou a melhor parte dela, seus mais nobres projetos, sua pureza e seu idealismo.

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