Vivendo com a natureza, a mais bela das artes

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 02/02/2018 03:00

Com fidelidade não posso esquecer o mundo que me inspirou e me embalou na infância vivida em Bom Jardim. Guardei os meus sonhos de menina e adolescente provinciana, continuando provinciana. De lá, com a ajuda da natureza, a mais bela das artes, gravei na memória e nas telas os compactos ipês amarelos, margeando as encostas das serras; a igreja barroca oitocentista de Nossa Senhora Santana, padroeira da cidade; as ruas, gente das redondezas, subindo e descendo ladeiras; sobrados cobertos de azulejos portugueses; procissões com as meninas vestidas de anjos (fui uma delas) e as manifestações populares: do pastoril às brigas de galo.

Por iniciativa dos amigos de Mauro Mota e meus também, os escritores Luiz Delgado, Nilo Pereira e Gilberto Osório de Andrade leram as minhas primeiras crônicas e se propuseram a encaminhá-las à Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), antes situada à Rua da Concordia. Nascia assim, o meu despretensioso livro Pátio da Matriz, com ilustrações do grande Lula Cardoso Ayres.

Realizamos como uma quimera, no dia do lançamento, a primeira exposição dos meus quadros em 1967, no Hotel São Domingos, à Praça Maciel Pinheiro, do amigo Luiz Dias e irmãos. O pintor, colecionador de Arte Sacra Abelardo Rodrigues, escreveu apresentação no catálogo. Registraram  presença  com suas assinaturas, os muitos amigos que também se destacavam na cena cultural e artística da época: Benicio Dias, Hermilo Borba Filho, Dulce Chacon, Vamireth Chacon, os compadres Maria do Carmo e Marcos Vilaça, Conceição e Clovis Paiva, Dinorá e Hélio Coutinho, Penha e Jordão Emerenciano, Lúcia e Zilde Maranhão, Maria Digna e Manuel Cavalcanti de Arruda, Elezier Xavier, Fédora Monteiro, o irmão Vicente Rego Monteiro, Wilson e Wellington Virgulino, Eudes Mota, a poeta pintora Tânia Carneiro Leão, maestro Vicente Fittipaldi, que no livro de presenças, além de assinar desenhou sua inconfundivel caricatura.

Tempos depois divaguei, folheando o livro de presenças, com saudades das pessoas que lá estiveram. Nossos vizinhos da Rua Amélia, médico Francisco Montenegro, Antiógenes Chaves, colecionador dos quadros do pintor Telles Junior, hospedeiro de Assis Chateaubriand, recebia-o com festivos e concorridos almoços e jantares, de alguns, participei com Mauro Mota. O poeta compositor Lourenço Barbosa, Capiba; o lendário cronista Altamiro Cunha, o folclorista Ascenço Ferreira, com sua indefinível figura, seu grande chapéu de palha e seu vozeirão, fazendo  todos rir com as suas blagues.

A escritora e pintora Ladjane Bandeira, minha colega do curso ginasial, exímia jogadora de Vôlei, dando sempre vitória ao nosso time do Colégio Damas, em da Nazaré da Mata ou do Mota, como brincavam  nossos amigos. Fomos alunas durante cinco anos do mestre e amigo, Daniel Lima. No internato havia o confinamento: alunas internas não podiam conversar com as externas. Continuamos amigas fora do colégio.      

Ao redor de onde moro em Casa Forte, ouço e vejo o trator botando abaixo uma casa do século XIX e serras elétricas criminosas na derrubada de árvores centenárias. A Avenida 17 de Agosto não comporta mais prédios. Na vizinhança dos apartamentos há interferências gritantes, tudo fora dos limites convencionais a nos tirar o sono. O poeta José Mário Rodrigues, meu confrade na APL escreveu a excelente crônica: “O silêncio como necessidade.”

Como seria bom voltar à casa de largas janelas onde me debruçava a olhar as ruas, com palhaços anunciadores do espetáculo às oito horas da noite. Saudades do barulho suave da chuva, batendo nas telhas-vans que nos acobertava.

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